Artigos Segunda-Feira, 30 de Julho de 2018, 09h:01 | - A | + A

ROBERTO DE BARROS FREIRE

Agir como ação política

ROBERTO DE BARROS

 

Como indivíduo não elegi esse mundo; viver é encontrar-se em um mundo determinado e insubstituível, neste de agora.

 

Mas esta fatalidade vital não se parece a alguma mecânica histórica ou natural. A fatalidade em que caí ao despencar neste mundo consiste em vez de impor-se uma trajetória, impõem-se várias, todas e nenhuma, e consequentemente, sou forçado a eleger.

 

Viver é sentir-se fatalmente forçado a exercitar a liberdade, a decidir o que vamos ser neste mundo. Nem um só instante se deixa descansar nossa atividade de decisão, inclusive quando desesperados nos abandonamos ao que vier, decidimos não decidir.

 

Parto de um princípio elementar: para existir a ação política basta estar vivo. Existir é em si um fato político. Mas, para haver participação política consciente, ou seja, perceber a ação conjugada dos homens e agir em conjunto pelo bem comum, o que importa é a atitude criativa, daquele que se torna sujeito de sua vida, e não mais o lugar de onde vem: a postura, e não a posição, eis o que conta. Ser condutor de sua vida, estadista do seu destino é o desafio para cada pessoa.

 

O ímpeto de agir vem ao mundo quando nascemos; respondemos à vida começando algo novo por nossa iniciativa. Agir, no sentido mais geral do termo, significa tomar iniciativa, iniciar, começar, ser o primeiro, governar, imprimir movimento a alguma coisa. O fato de o homem ser capaz de agir significa que se pode esperar dele o inesperado, sendo capaz de realizar o infinitamente improvável, tanto para o bem como para o mal. E isto, por sua vez, só é possível porque cada homem é singular, de sorte que, a cada nascimento, vem ao mundo algo singularmente novo.

 

Entretanto, o estabelecimento de um novo início através da ação incide sempre sobre uma teia já existente, e nela imprime suas consequências mais imediatas. Juntos, os homens iniciam novos processos, que mais tarde emergem como a história de vida do recém-chegado, que afeta de modo singular a história de vida de todos aqueles com quem ele entra em contato. É em virtude desta teia preexistente de relações humanas, com suas inúmeras vontades e intenções conflitantes, que a ação quase sempre deixa de atingir seu objetivo; mas é também graças a esse meio, onde somente a ação é real, que ela “produz” histórias, intencionalmente ou não.

 

Pelo fato de que todo ator se movimentar sempre em relação a outros seres atuantes, ele nunca é simples agente, e sim ao mesmo tempo paciente. Agir e padecer são como faces opostas da mesma moeda, e a história iniciada por uma ação compõe-se de seus feitos e dos sofrimentos deles decorrentes.

 

Estas consequências são ilimitadas porque a ação, embora provindo do indivíduo, atua sobre um meio no qual toda reação se converte em reação em cadeia, e todo processo é causa de novos processos. Como a ação atua sobre seres que também são capazes de agir, a reação, além de ser uma resposta, é sempre uma nova ação com poder próprio de atingir e afetar os outros. Assim, a ação e a reação jamais se restringem entre os homens a um círculo fechado, e jamais podemos, com segurança, limitá-las a dois parceiros.

 

A ação sempre estabelece relações, e tem, portanto, a tendência inerente de violar os limites e transpor as fronteiras. O fato é que até a mais inofensiva das ações humanas, a atividade de pensar, delibera reflexão e juízo autônomos no domínio público, no qual aparece sempre como um cidadão entre cidadãos, lançados na aventura do espaço público.

 

Se o mundo é plástico e está em constante mutação, quando visto do ângulo do indivíduo criativo e astucioso, ainda que a ação seja privada e egoísta, seu resultado é social, instituído por uma ação criadora – e pouco importa se esta é a do indivíduo ou do grupo. A essa ação que cria o social cabe chamar de ação política, uma ação que assume como seu, o ponto de vista da criação, e que pretende moldar ou criar o social. Há política quando nos fazemos sujeitos de uma realidade, quando não a tomamos por dada, ou por independente da ação humana, mas a concebemos como resultado dessa ação, e ainda nos propomos a agir, moldando o mundo.

 

Ora, aquilo que faz do homem um ser político é sua faculdade para a ação; ela o capacita a reunir-se a seus pares, agir em conjunto e almejar objetivos e empreendimentos que jamais passariam por sua mente individualmente, deixando de lado alguns desejos de seu coração ao se aventurar em algo novo em conjunto com outros. A inserção no mundo humano se dá com palavras e atos numa república que compartilha a Terra com todos os demais. É em conjunto com os demais que construímos nosso lugar no mundo ou o destruímos.

 

ROBERTO DE BARROS FREIRE é professor do Departamento de Filosofia/UFMT.

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