Artigos Sexta-Feira, 02 de Março de 2018, 08h:55 | - A | + A

VICENTE VULO

Esquizofrenia política

VICENTE VULO

Apesar de não terem começado oficialmente, as eleições brasileiras fazem parte do contexto político efervescente em que nos encontramos. Um belo exemplo foi dessa ebulição pré-eleitoral foi a declaração da Ministra Carmen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), no início deste mês, em visita ao Estado de Goiás: “o cidadão brasileiro está cansado da ineficiência de todos nós. Por mais que tentemos, e tenho certeza que estamos tentando, temos sempre um débito enorme com a sociedade”.

 

A dura fala da ministra foi assunto de editorial no jornal Correio Braziliense, e reflete a fragilidade em que se encontram as instituições no país, depois de terem suas estruturas abaladas por mais de três anos de crise política e econômica.

 

E por que isso acontece? Porque a classe política ainda não se conscientizou da grave crise ética que atravessamos. Apesar de 48 fases da Operação Lava-Jato que expuseram um volume de escândalo e volume financeiro de relações espúrias entre o capital e poder público jamais visto na história do país, muitos políticos insistem em concorrer utilizando as mesmas práticas e vícios para alcançar o poder a qualquer custo.

 

Parece que a esquizofrenia tomou conta de uma geração fracassada de políticos. Como bem disse o filósofo Pedro Henrique Alves: “somos partícipes da geração mais cega e incompetente da história humana, a geração que mora na boca-de-fumo, mas não sabe que lá se trafica. Políticos que desfrutam dos prazeres do dinheiro, mas que não sabem de onde surgiam as doações e os agrados”.

 

Os acometidos por esse mal, criam mundos ou situações fantasiosas. A grande maioria dos políticos, principalmente os detentores de mandatos, prefere ignorar os anseios maiores da nossa população. Ao invés disso, prefere o discurso fácil.

 

O escritor britânico George Orwell dizia o que parece estar se tornando regra no pensamento político moderno: “a modernidade consegue pensar contraditoriamente sem que isso se torne ilógico para ela”. Somos a geração que odeia o capital e ainda sim quer dinheiro; que odeia a industrialização, mas quer pagar barato no Iphone; que odeia o empresariado, entretanto quer emprego; que reclama dos juros altos, mas quer mais interferência estatal. George Orwell chamava isso de “duplipensar” em sua obra 1984. Já, Pedro Henrique Alves caracteriza como “esquizofrenia política”.

 

É possível perceber uma verdadeira praça de teatro na vida política brasileira. Um distúrbio psíquico que faz com a pessoa perca a noção da realidade. O filósofo Pedro Henrique Alves cita em seus manuscritos como exemplo de esquizofrenia política a declaração do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva: “não existe viva alma mais honesta do que eu nesse país”.

 

Uma a essa situação o fato que as pessoas não pensam o seu cotidiano levando em conta a história, o passado, nem olhando o futuro. Raciocinam e tomam decisões a partir de considerações do presente, do cotidiano. Assim, não levam em conta as consequências dos seus atos. Burlam a lei, cometem pequenos delitos, pequenas corrupções, e não pensam que isso tem consequências.

 

E a que isso leva? A sociedade vai se deteriorando, vai enfraquecendo. Isso já ocorreu antes, inclusive com Impérios. Mudar uma cultura social e política que vai à falência não é uma coisa fácil, geralmente só é possível ocorrer a partir de um trauma maior ainda, uma guerra, a divisão do país e situações de quase morte da sociedade.

 

Não quero isso ao Brasil, não creio que alguém, algum brasileiro ou brasileira, o deseje. Mas o país está caminhando a passos largos para se inviabilizar. Talvez seja o meu otimismo, mas ainda acho que é tempo para se mudar, para se alterar o rumo.

 

VICENTE VUOLO é economista e analista legislativo do Senado.

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