icon clock h

Terça-Feira, 09 de Fevereiro de 2021, 11h:15 | - A | + A

O PAREDÃO DA VIDA

O Big Brother e a nossa necessidade de vencer

Eduardo Butakka

Jamais pensei em escrever sobre o reality Big Brother. E isso não se deve ao fato de considerar o assunto sem importância ou, como já ouvi muitos dizerem, por ser um "entretenimento de baixo nível". Eu, particularmente, acho essa opinião presunçosa e até mesmo elitista. Enfim, explico.

 

A 21ª edição do programa global tem reverberado nas redes sociais cenas difíceis de digerir. Participantes sendo humilhados, excluídos, torturados psicologicamente por grupos liderados por outros participantes. É excruciante. Ou melhor, na linguagem das redes: É gatilho atrás de gatilho! Entretanto, o público continua assistindo, como se torcesse pelo momento "Deus ex machina" em que a justiça enfim será feita. Ou, quem sabe, pelo momento da revolta dos humildes e da justiça aos opressores.

 

"Temos uma tendência natural a querer ficar do lado dos mais fortes, a nos juntarmos a eles na primeira oportunidade. Nessa dinâmica, poucos ousam levantar a voz para defender o gay, o negro, a mulher, a minoria. E ai de quem faz isso!"

O que quero tratar aqui, no entanto, é o quanto esse entretenimento, que no meu ponto de vista se assemelha a um experimento social não fosse toda a publicidade investida, é um recorte da sociedade moderna. Lá dentro do show, os jogadores que se mostram mais fortes atraem súditos na casa. Poucos ousam se voltar contra os líderes, correndo o risco de se juntarem ao grupo dos excluídos. 

 

Aqui fora não é diferente, afinal. Se fizesse uma enquete aqui, asseguro com quase certeza que me faltariam dedos para contar as pessoas que se identificariam com a cena a seguir: nos tempos de escola, assistimos o grupo dos valentões oprimindo os mais fracos e sendo ovacionados por muitos. Temos uma tendência natural a querer ficar do lado dos mais fortes, a nos juntarmos a eles na primeira oportunidade. Nessa dinâmica, poucos ousam levantar a voz para defender o gay, o negro, a mulher, a minoria. E ai de quem faz isso! 

 

Essa lógica de oprimidos que almejam estar no lugar dos opressores reverbera em todas as relações de poder e a política, a meu ver, é o exemplo mais pictórico disso. Quantas vezes você ouviu a frase "eu queria votar nesse candidato, mas ele não tem chance de ganhar"? O voto útil é, comprovadamente, um fator de decisão nas eleições e por isso as pesquisas eleitorais são tão importantes para moldar a opinião pública, em especial dos indecisos. A ideia de votar no mais fraco, de estar ao lado de quem não tem chance de vencer, é inconcebível. 

 

O filósofo Johan Huizinga em seu livro "Homo Ludens" descreve a necessidade de "jogar" como inerente à natureza humana e que essa necessidade ultrapassa os limites da realidade física. Com o jogo vem a obrigação de representar papéis. E não me refiro aqui aos personagens dos palcos, das telas, mas daqueles papéis sociais aos quais representamos no dia a dia. Para o filósofo, o que torna o jogo interessante é a possibilidade de vencer. Ou seja, quanto menor as chances de ganhar uma disputa, menor o interesse dos jogadores em permanecer no jogo. Essa sistemática ajuda a entender o porquê de querermos sempre estar do lado dos mais fortes, mais nutridos, mais providos de recursos, de atributos físicos e inteligência: Ninguém quer perder. 

 

E se por um momento quebrássemos essa dinâmica? E se ousássemos ficar do lado dos mais fracos antes de ter elementos suficientes para discernir? Será que toda essa dinâmica de crueldade enraizada em nós não começaria a mudar? Não sei. Contudo, continuo seguindo a lógica de Pedro Casaldáliga: "na dúvida, fique ao lado dos pobres".

 

Eduardo Butakka é ator, diretor e professor de Teatro formado pela UnB e publicitário pela UFMT

VOLTAR IMPRIMIR

COMENTÁRIOS

Rose Velasco - 10/02/2021

Brilhante e inteligente leitura. As informações e conhecimentos descritas no texto, servem para reflexão de outras situações atuais da nossa realidade, enquanto sociedade e nação. Parabéns, Eduardo

Nádia - 09/02/2021

Falou tudo Eduardo Butakka ????????

2 comentários




Informe Publicitário






NEWSLETTER

Cadastre-se e fique por dentro dos últimos acontecimentos e relatos do pnbonline.