Artigos Quinta-Feira, 27 de Dezembro de 2018, 09h:53 | - A | + A

ROBERTO FREIRE

Retrospectiva 2018

ROBERTO FREIRE

 

Foi um ano com muitas mortes, ou tentativas; da morte de Marielle à tentativa de morte de Bolsonaro, até houve um louco numa igreja de Campinas há pouco: um ano bruto, duro, rústico, sórdido e mórbido. Matar uma vereadora já representa um desafio às autoridades, mas não identificar o mandante e o autor, após longos e tenebrosos meses, é um indício da incapacidade nacional que está por toda parte, e um afronte com a comunidade humana.

 

O fato é que as classes populares são odiadas e desprezadas, e pouca atenção recebe das autoridades. Você pode matar um pobre no Brasil, que não acontece nada. A polícia mata com requintes de crueldade e ninguém se comove porque os pobres são percebidos de modo desumanizado, como os escravos eram, e o que é pior ainda, por eles mesmos. Fosse Marielle da elite com certeza o tratamento seria outro: dela até mesmo se afirmou que era culpada de sua morte.

 

Tivemos a eleição presidencial mais incerta desde a redemocratização, há três décadas, a única que não orbitou pelos partidos hegemônicos, além de ter sido marcada pela prisão de Lula e pelo atentado a faca sofrido pelo então candidato e agora eleito Jair Bolsonaro.

 

Foi um ano que normalmente pouco se faz no Brasil, pois teve duas coisas que nos levam a vagabundagem: copa e eleições. A copa foi um rápido fiasco, que nos fez perceber nossa inferioridade no futebol, e logo caímos na real. As eleições ainda estão na ordem do dia, pois há toda expectativa para o próximo ano, que a grande maioria espera ser melhor, que se mude de fase devido ao eleito.

 

Temer vai deixar o Palácio do Jaburu carregando no currículo três denúncias da Procuradoria-Geral da República, que compõe diversas acusações. São acusações de corrupção, de chefiar organização criminosa, de obstruir a Justiça e de lavagem de dinheiro. Além disso, é de se notar que os meses de maio sempre foram cruéis com Temer: em 2017, a gravação de Joesley veio ao público; em maio de 2018, veio a greve dos caminhoneiros a paralisar o país. Carrega também o estigma de ser o presidente menos estimado e mais desprezado de todos os tempos, tendo os menores índices de aprovação. Espera-se que ele e o Alécio Neves sejam presos em breve: eis uma boa expectativa de ano novo!

 

Como não bastasse a morte e o roubo generalizado que só aumenta nossa criminalidade, de um louco a matar indiscriminadamente numa igreja em Campinas, também tivemos um suspeito de ter abusado sexualmente de dezenas de mulheres que foram suas pacientes, o médium João Teixeira de Farias, conhecido como João de Deus. Divino? Poucas coisas são tão carnais como aqueles que parecem ostentar o lado “espiritual”. Padres e pastores pedófilos aos montes, espíritas, pai de santos, curandeiros, pastores charlatões, que exploram a boa fé e a ingenuidade e insegurança de crianças e jovens, ou mesmo de adulto; eis o lado escuro da suposta luz das religiões.

 

Enfim, não foi um bom ano, e no máximo não piorou o que já era muito ruim: em 2018 tivemos números ímpios nas virtudes e exacerbados na violência. Pelo menos tivemos eleições livres e renovamos o Congresso, o que não significa necessariamente em alguma melhora, pois se podem escolher pessoas ainda piores do que aquelas que atualmente ocupam o congresso.

 

Quanto ao mundo, fugindo da violência que assola países da América Central, milhares de imigrantes se juntaram em grandes caravanas com o objetivo de atravessar o México e chegar aos Estados Unidos; todos não recebidos, e não apenas mal recebidos.

 

O Iêmen entrou no terceiro ano de uma sangrenta guerra civil com efeitos catastróficos para a população civil, com a Arábia Saudita condenando a fome milhares de crianças iemenitas, através de suas sanções ao país. Acrescentemos aos “grandes feitos” árabes a morte do jornalista saudita Jamal Khashoggi, brutalmente assassinado numa embaixada na Turquia.

 

O mundo civilizado não ficou imune a algumas catástrofes, assistimos no palco frequente de incêndios florestais, o estado americano da Califórnia sofreu neste ano com o fogo mais devastador de sua história. E a França experimentou a sua própria greve dos caminhoneiros na figura dos protestos dos “coletes amarelos”, como ficaram conhecidos os manifestantes que fecharam rodovias e organizaram atos em diversas cidades para protestar contra o reajuste nas tarifas dos combustíveis proposto pelo governo Emmanuel Macron.

 

Foi também um ano em que investigações revelaram que centenas de padres abusaram de menores nas últimas décadas somente nos EUA e casos de abuso vieram à tona em outros países. Avistamos crianças molestadas no lar, na igreja, nas escolas em todas as partes do mundo. O mundo expos suas sujeiras como nunca antes visto.

 

Perdemos o mais festejado cientista de atualidade que nos deixou no dia 14 de março: O ADEUS A STEPHEN HAWKI! Por outro lado, tivemos a confirmação de que a Voyager-2 atingiu o espaço interestelar e agora sai do sistema solar, navegando para estrelas distantes. Algo decorrente de sonhos humanos da década de 70, de preparar e lançar o Voyager.

 

De minha parte, como bom realista, não se deve esperar alguma redenção do mundo a partir dos movimentos populares; é uma expectativa imatura para um povo infantil. Só se pode torcer tão somente que se aprenda com os erros. O governo, com certeza, errará.

 

ROBERTO DE BARROS FREIRE é professor do Departamento de Filosofia/UFMT.

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