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ARTIGO

De olho na águia

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As obras de implantação do BRT em frente ao Shopping Pantanal, na avenida do CPA, em Cuiabá, me deixaram apreensiva. Isto porque é nesse lugar que está o Monumento à Democracia e à Liberdade, uma homenagem cuiabana a Ulysses Guimarães, político que representa a luta pela redemocratização do Brasil e a Constituição de 1988.

Minha preocupação se justifica por causa de episódios protagonizados por administrações municipais – um recente e outro mais antigo – que afetaram bens culturais da capital mato-grossense, gerando reações na sociedade local, que, aliás, nem sequer foi avisada acerca das decisões dos gestores.

Um deles, de janeiro deste ano, na administração Abílio Brunini, foi a remoção do Memorial Dante de Oliveira, uma homenagem ao ex-prefeito de Cuiabá e ex-governador de MT, instalado na Praça Rachid Jaudy, na área central da cidade. O político faleceu em 2006 e ficou conhecido no país pela emenda Diretas Já.

Essa ação do município provocou reação de políticos e familiares do cuiabano, além do Instituto Dante de Oliveira. A entidade repudiou a retirada do acervo, em especial porque ocorreu na mesma data do falecimento da mãe de Dante, d. Maria Benedita, em 12 de janeiro.

Outro episódio marcante é de 2019, na gestão Emanuel Pinheiro. Naquele ano, o Monumento Árvore de Todos os Povos, uma escultura-poema de Wlademir Dias-Pino, foi removido da praça 8 de Abril, pela prefeitura municipal, sob o argumento de revitalização do lugar.

Criada em 2008, a obra é uma homenagem ao Intensivismo, movimento literário de vanguarda internacional que ocorreu em Cuiabá nos anos 1940 e 1950. Esse movimento trouxe fortes inovações formais que anteciparam as tendências mais radicais da poesia visual e das artes plásticas naqueles anos.

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Já o Monumento a Ulysses Guimarães – obra de arte inaugurada em 1993 pelo então prefeito Dante de Oliveira – é um marco simbólico da cidade. Localizado na avenida do CPA, trata-se de um imponente obelisco inclinado em direção ao Norte, que sustenta na ponta uma águia em pleno voo.

José Antônio Lemos dos Santos e Ademar Poppi foram os arquitetos cuiabanos que projetaram o Monumento. Já a escultura metálica da águia foi criada por Nicolas Vlavianos, escultor grego que se radicou no Brasil em 1961. A figura da águia, que coroa a pirâmide inclinada, representa a Democracia alçando voo – “cada vez mais alto, livre, seguro e verdadeiro”.

À coluna, a assessoria da Secretaria de Estado de Infraestrutura (Sinfra), responsável pelas obras do BRT, sustentou que o projeto de implantação do modal naquele ponto da avenida “não prevê nenhuma alteração em relação ao Monumento”, frisando que, “nesse trecho, o BRT, inclusive, está passando do outro lado”.

– Ufa!

Domingo (8), ao verificar as obras do BRT naquela região, constatei sim que os trabalhos no entorno se realizam respeitando o espaço ocupado pelo Monumento. O contrário ocorreu com o posto de gasolina que, por décadas, funcionou na avenida, próximo à arte. Esse imóvel foi desapropriado e demolido para a passagem do modal.

A assessoria da Sinfra informou também que aquele trecho receberá o Parque Linear da Avenida do CPA, urbanização, espaço com áreas para práticas esportivas e de convivência, além de uma estação de passageiros do BRT.

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Já no caso do Memorial Dante de Oliveira, a gestão de Cuiabá informou que o acervo (documentos, imagens, quadros e objetos pessoais) retratando a trajetória do político retornou à sua localização original, após passar por ‘limpeza e revitalização’. Mas passou a dividir seu espaço inicial com uma recém-instalada Secretaria de Trabalho de Cuiabá.

Quanto ao Monumento Árvore de Todos os Povos, a obra de Dias-Pino voltou à praça 8 de Abril em março de 2024, cinco anos após sua retirada. Em 2019, a administração municipal instalou no seu lugar uma escultura feita com cano de PVC, representando um poleiro de tuiuiús, o que provocou forte reação e cobrança da classe cultural cuiabana.

Esses episódios servem de alerta para os riscos a que o patrimônio cultural da capital pode estar sujeito, por conta de decisões equivocadas das administrações públicas.

Depois de um susto enorme e da mobilização da sociedade, o Memorial Dante de Oliveira e o Monumento Árvore de Todos os Povos retornaram às suas origens.

Agora é ficar de olho na águia que simboliza a defesa da democracia e reforçar o alerta para a preservação dos bens históricos e simbólicos de Cuiabá, exigindo transparência do poder público quando há decisões que afetam esse patrimônio.

Sônia Zaramella é jornalista e professora aposentada do curso de Jornalismo da UFMT.

 

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

Artigo publicado originalmente no Eh Fonte

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