Três mulheres que trabalharam no cerimonial do Governo de Mato Grosso relatam que foram vítimas de assédio por parte do chefe do setor, o locutor Júnior Cuiabano. As denúncias, que incluem piadas de cunho sexual, comentários constrangedores e perseguição, pintam um quadro de ambiente de trabalho tóxico e desrespeitoso.
As vítimas, que pediram para que seus nomes não fossem divulgados, relatam que após tentativas frustradas do locutor foram escanteadas por decisões administrativas dele até que fossem exoneradas. Uma das vítimas disse ter procurado a primeira-dama do Estado, Virgínia Mendes, em 2023, mas que nenhuma providência foi tomada desde então. Veja imagem no fim da reportagem.
A primeira-dama chegou a ligar para duas das vítimas, ouviu o relato do suposto episódio de assédio, mas a situação continuou. Nenhum procedimento administrativo disciplinar ou investigação formal foi feita, apesar das vítimas procurarem o governo. Após ser questionado pela reportagem, o Governo do Estado informou que desconhecia as denúncias, que iria apurar o caso e, se constatados os casos de assédio, iria tomar as providências necessárias (confira a íntegra da nota no fim da reportagem).
Segundo uma das vítimas, o assédio ocorreu por meio de piadinhas e comentários inadequados, como “você é linda”, “se eu casasse com você”, “se você largasse seu marido”. Outra mulher, que também pediu para falar sob anonimato, relatou que o locutor sugeriu a ela que os dois “ficassem” e que ela poderia ser beneficiada com “gordurinhas de contratos”.
“Em um dos eventos ele me procurou e tentou me abordar, dizendo que tinha interesse, falando que se ficasse com ele eu poderia ganhar com ‘gordurinhas de contratos’. Eu recusei, fiquei assustada e depois ele me mandou mensagem, no celular, perguntando sobre o meu comportamento”, conta. Ela relatou que, em outra ocasião, o locutor teria jogado um fone de ouvido como se fosse um presente, dentro de sua bolsa.
As servidoras contam que o locutor do cerimonial costumava afirmar, em rodas de conversas, que é um “ninfomaníaco” e que a declaração acabava constrangendo quem estava presente.
Outra servidora afirmou que disse não às investidas e contou que passou a sofrer constrangimentos públicos por parte chefe de cerimonial por estar impedida de viajar para os eventos em razão de uma questão de cunho pessoal.
“Quando entrei, foi acordado que eu não poderia viajar, mas que em compensação eu trabalharia nos finais de semana. Expliquei a razão pela qual eu não viajaria. No começo ele aceitou”, diz. “Depois o que aconteceu foi que, como neguei as tentativas de aproximação, ele passou a falar publicamente que eu não poderia viajar, dizia que eu ‘tinha sorte’ quando algum evento fora da capital era desmarcado, e isso me deixava constrangida, era uma tentativa de me diminuir”, relatou. “Algumas vezes ele dizia que eu era frustrada, fazia comentários negativos”, disse.
Em uma conversa com Júnior, a vítima tentou resolver a situação de forma pacífica, explicando que os comentários eram pessoais e que ela não poderia viajar. Ela chegou a dizer que, se sua ausência fosse um impedimento, ela aceitaria ser exonerada. Júnior, então, teria dito: “Você sabe muito bem o que eu quero”. Ao ser questionado sobre o que ele queria, ele alterou a voz e a acusou de “entregá-lo”.
A vítima foi exonerada duas semanas depois da conversa. Ela acredita que a exoneração foi uma retaliação por sua recusa em ceder às investidas de Júnior.
A reportagem do PNB Online teve acesso ao print de conversa em que uma das vítimas relata à primeira-dama Virgínia Mendes o incômodo com o locutor, que trabalha com Mauro Mendes (União) desde que o político era prefeito de Cuiabá. As mulheres alegam que, mesmo sem cargo público, a primeira-dama liderava a cadeia de comando no cerimonial e tinha influência nas decisões e que por conta disso foi procurada para auxiliar.
“Não sei se vai ler um dia a msg, mas está tudo mto estranho… o que era para ser ser harmonioso se tornou filme de terror”, diz a mensagem.

O outro lado
O Governo do Estado foi procurado pela reportagem para se pronunciar sobre as denúncias. Por meio de sua assessoria, informou que desconhece as denúncias, mas que vai apurar o caso.
O locutor Júnior Cuiabano refutou todas as acusações e afirmou que não teve acesso ao teor da denúncia.
“Refuto qualquer acusação, pois sempre me pautei pelo trabalho técnico e respeitoso com os meus colegas e membros da minha equipe”, declarou.
Confira abaixo a íntegra da nota do Governo:
O Governo do Estado recebeu a informação sobre a denúncia de possível assédio por meio deste veículo de comunicação na data de ontem (25). Até então, nenhuma denúncia havia sido formalizada ao Governo. Imediatamente, após tomar conhecimento, foi iniciado o procedimento para apuração dos fatos. Constatada a veracidade, todas as medidas cabíveis serão adotadas.
Este Governo não coaduna e repudia qualquer tipo de assédio contra servidores, principalmente mulheres.





















