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ARTIGO

O dilema de Mato Grosso: obras inteligentes x obras intermináveis

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Mato Grosso se consolidou nas últimas décadas como uma das maiores potências econômicas do país. O estado lidera a produção nacional de commodities, possui cidades entre os maiores PIBs do agronegócio brasileiro, reúne três dos principais biomas do planeta e ocupa posição estratégica no cenário logístico nacional. Mas, em meio a esse protagonismo, surge um dilema cada vez mais evidente: como um estado que avança em ritmo acelerado ainda convive com obras públicas lentas, fragmentadas e intermináveis?

Enquanto países como China, Singapura e Chile utilizam inteligência artificial, modelagem digital e sistemas integrados para executar obras em poucos dias, Cuiabá convive há mais de uma década com intervenções urbanas que parecem não ter fim. O contraste revela não apenas uma diferença tecnológica, mas principalmente uma diferença de cultura de planejamento.

A construção civil mundial passa por uma transformação profunda. O setor deixou de trabalhar apenas com concreto, aço e máquinas pesadas para incorporar dados, sensores, automação, inteligência artificial e plataformas digitais capazes de prever falhas antes mesmo do início das obras. A engenharia do futuro já começou.

Em diversos países, tecnologias como BIM (Building Information Modeling), gêmeos digitais e canteiros inteligentes reduziram drasticamente desperdícios, retrabalho e atrasos. Hoje, já existem cidades que conseguem simular virtualmente toda a execução de uma obra antes da primeira escavação acontecer no ambiente físico.

Na China, prédios modulares são erguidos em poucos dias. No Chile, viadutos já foram instalados em menos de 72 horas utilizando planejamento altamente integrado e estruturas pré-fabricadas. Em Singapura, sistemas baseados em inteligência artificial automatizam processos de análise e aprovação de projetos públicos, reduzindo burocracia e acelerando decisões.

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No Brasil, especialmente em grandes obras urbanas, ainda convivemos com uma lógica excessivamente reativa. Muitos projetos continuam sendo executados com baixo nível de integração entre planejamento, engenharia, mobilidade, impacto urbano e gestão operacional. O resultado aparece em atrasos, revisões constantes, retrabalho e aumento de custos, que pesam no bolso do cidadão.

O problema de uma obra lenta não é apenas financeiro. Quando uma intervenção urbana se arrasta durante anos, ela compromete a mobilidade, prejudica o comércio, reduz a produtividade da cidade, aumenta o desgaste da população e afeta diretamente a qualidade de vida das pessoas. O prejuízo deixa de ser apenas técnico e passa a ser social e econômico.

Cuiabá conhece bem essa realidade. Há mais de dez anos, a capital convive com impasses relacionados às obras do VLT/BRT, incluindo mudanças de modal, paralisações, revisões contratuais e sucessivos atrasos em projetos de mobilidade urbana.

O debate sobre infraestrutura não pode mais se restringir apenas ao valor investido ou ao tamanho das obras. É preciso discutir inteligência de planejamento, integração tecnológica e capacidade de execução. O mundo inteiro já compreendeu que cidades inteligentes exigem engenharia inteligente.

Não faz sentido investir bilhões em infraestrutura sem utilizar ferramentas capazes de integrar dados, prever impactos e otimizar decisões em tempo real. Continuar construindo com métodos fragmentados significa ampliar custos, atrasos e impactos urbanos que poderiam ser evitados com planejamento digital adequado.

É justamente nesse ponto que tecnologias como o BIM e os gêmeos digitais ganham relevância estratégica. Mais do que produzir modelos tridimensionais, essas ferramentas permitem criar uma espécie de “cérebro digital” da obra, reunindo informações estruturais, operacionais, financeiras e logísticas em uma única plataforma integrada.

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Com isso, torna-se possível prever conflitos de engenharia antes da execução, reduzir desperdícios de materiais, acompanhar cronogramas em tempo real, monitorar desempenho estrutural e até planejar manutenções futuras. Em outras palavras, a engenharia deixa de apenas reagir aos problemas e passa a antecipá-los.

Os chamados canteiros inteligentes também representam uma mudança importante nesse processo. Drones, sensores, laser scanning, RFID e sistemas automatizados de monitoramento já permitem acompanhar obras com muito mais precisão, segurança e eficiência. Muitas dessas tecnologias, inclusive, já estão acessíveis no mercado brasileiro.

O maior desafio, no entanto, talvez não seja tecnológico, mas cultural. A transformação digital da construção civil exige mudança de mentalidade, capacitação profissional e modernização da gestão pública. Ainda existe resistência à adoção de sistemas mais integrados, especialmente em estruturas acostumadas a modelos fragmentados e burocráticos.

Mato Grosso possui profissionais altamente qualificados, empresas capacitadas e acesso a tecnologias já consolidadas em diversas partes do mundo. O desafio, portanto, não é apenas técnico. A modernização da infraestrutura pública depende também de decisão política. Romper modelos ultrapassados de planejamento e gestão exige integração entre planejamento, engenharia e gestão urbana.

Rodrigo Senra, presidente do IEMT, engenheiro civil, empreendedor, palestrante e professor MBA de soluções BIM e transformação digital.

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

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