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ARTIGO

“Influencers do lixo”

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Dia desses me lembrei de um dirigente patronal, contrário à redução da jornada de trabalho brasileira de 44 para 40 horas semanais, também conhecida como Fim da Escala 6×1. Ele taxou o Brasil de “um país preguiçoso, que trabalha cada vez menos”, e elogiou os EUA, onde tem familiares “felizes em trabalhar até 16 horas diárias, por conta da remuneração em dólar”. Deduzo que, por se sentirem no paraíso, na meca do capitalismo, os citados familiares possuem o green card e habitam boas moradias (casas ou apartamentos). Portanto, não vivem os perrengues de quem, para serem remunerados em dólar, entrou no país pelas mãos de “coyotes” e vive sob o constante medo da deportação.

Há uma terceira categoria destes imigrantes brasileiros nos Estados Unidos, segundo uma matéria, de janeiro ano passado, publicado no UOL. Os que registram em vídeo suas rotinas nada glamourosas. Parecem não ter medo do ICE, mas lhes falta grana para alugar um simples quarto ou “mergulham” em lixeiras de supermercados em busca de comida, mesmo trabalhando o dobro da jornada brasileira e ganhando entre 15 e 35 dólares por hora.

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O quarto, cujo aluguel gira em torno de 800 dólares, é substituído pelo carro, onde dormem, estacionado no estacionamento de supermercado, correndo o risco de ser acordado pela polícia. Ah! O café é tomado na rua e o banho, na academia. A alimentação pode ser também adquirida por meio da dumpster diving (vasculhar caçambas de lixo). Com luva, seleciona-se os alimentos considerados reaproveitáveis, mesmo com alguns deles já vencidos, a serem higienizados. São “frutas, leite, pães, ovos e barrinha de cereal!”. Diz a IA que o movimento se transformou em febre digital, gerando uma comunidade de “influenciadores do lixo”, com milhões de visualizações nas redes sociais. O motivo para todo esse sacrifício é definido por um desses influencers: “a dificuldade de se legalizar aqui é grande, então a gente tem de aproveitar para fazer dinheiro. Para quem não está com a vida ganha, é o que a gente tem de passar para poder conseguir galgar um lugar melhor ao sol”.

Há, ainda, os sem noção, como mostra o diálogo entre uma brasileira e seu companheiro, gravado em vídeo: (Ele) E, aí, amor, comprou? (Ela) Não, só aluguei, porque preciso mostrar para esse povo como é ter um carrão desse aqui nos Estados Unidos. (Ele) Você é doida! Você tem dinheiro para comprar este carro? (Ela) Pra alugar, tem, né meu amor. Qualquer um pode alugar. Você aluga uma Mercedes dessa por um dia, véi. (Ele) É gastar dinheiro à toa. (Ela) Não é à toa. O pessoal no Brasil precisa ver que tô bem aqui na fita”.

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Pois é! Como os novos tempos inovam. Situações antes consideradas segredos constrangedores, tipo comer feijoada em lata, são corriqueiramente postadas nas redes sociais. Não diria que habitar um carro seja degradante, mas nada confortável. Catar comida em lixeiras, mesmo nos EUA, esta, sim, é degradante. Mesmo assim, o apoio nas redes sociais é cada vez maior.

Jairo Pitolé Sant’Ana é jornalista

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

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