Muita gente imagina que a Igreja deve estar preocupada apenas com questões de fé, de doutrina, da vida após a morte, a salvação da alma, com o céu e com o inferno, enfim, com dimensões exclusivamente transcendentais, apesar de que as pessoas vivem em um determinado território, com estruturas, culturas e religiões diferentes, enfrentando desafios de toda ordem, enfim, vivemos na e fazemos história.
É neste contexto que surge a inserção das Igrejas e Religiões no “mundo temporal”, habitado por pessoas concretas, com seus sonhos, seus conflitos, suas necessidades e sob essas condições as pessoas, tanto individual quanto e, principalmente, coletivamente, nascem, vivem e morrem. Experimentam alegrias, tristezas, lágrimas, vitórias e derrotas ao longo da caminhada terrena.
Apesar da existência de um ideal coletivo de paz e harmonia universais nutrido milenarmente, o mundo tem presenciado e continua presenciando, um hiato, um fosso entre o ideal do bem comum, da “terra sem males” ou da civilização do amor, tanto enfatizados por diferentes Pontífices, como São João XXIII, São Paulo VI, São João Paulo II e, mais recentemente, pelos Papas Francisco e Leão XIV e a realidade da violência, dos conflitos armados, das guerras, da pobreza, da miséria, da fome e da exclusão.
Esta realidade é fruto da ganância, do pecado, da usura, da concentração de poder, de renda, riqueza e propriedades em “poucas mãos” e poucos países, gerando os problemas e desafios mencionados anteriormente.
É neste contexto, por exemplo, que o Concílio Vaticano II ( 1962- 1965) promoveu profundas reformas nas estruturas e práticas da Igreja Católica, incluindo de forma mais explícita, apesar de que isto já constava dos textos sagrados, principalmente dos Evangelhos e outros “livros” do Novo Testamento, a chamada “opção preferencial pelos pobres, excluidos e oprimidos” e também a ideia-força do papel e importância da participação de leigos e leigas, principalmente a partir das “Comunidades Eclesiais de Base”.
Assim, apesar da resistência de alguns setores conservadores, a Igreja é compelida a sair de suas estruturas milenares rígidas e longe da realidade concreta da vivência e sofrimento do povo e muito mais próxima dos “donos do poder”, para aproximar-se mais e caminhar junto com o povo sofredor, longe das estruturas de poder, representadas pelas elites dominantes e pelos grupos poderosos em todos os países.
Foi também na esteira do Concílio Vaticano II que floresceu a Teologia da Libertação, com impacto na Igreja da América Latina nas décadas de 60 e 70 principalmente.
No caso do Brasil, com o surgimento da CNBB em 14 de outubro de 1952, no Rio de Janeiro, por iniciativa de 15 arcebispos e que teve como grande idealizador e primeiro secretário-geral, o Cardeal Dom Hélder Câmara, uma das figuras lendárias da Igreja Católica no Brasil.
A CNBB foi a primeira Conferência Episcopal da América Latina e uma das pioneiras no mundo e, desde então tem desempenhado papel importante tanto em assuntos de natureza eclesial quanto diante dos principais desafios e problemas socioambientais, econômicos e políticos que tem marcado a história recente do Brasil.
Sempre é bom relembrar, por exemplo, que a Igreja e a CNBB tem tido um papel relevante na defesa dos direitos humanos, principalmente no período de governos autoritários (ditadura militar), na defesa dos trabalhadores rurais (CPT – Comissão Pastoral da Terra) e urbanos, na defesa dos povos indígenas (CIMI – Conselho Indigenista Missionários) e, mais recentemente, com a ênfase do magistério do Papa Francisco em relação `a Ecologia Integral (Pastoral da Ecologia Integral).
Além disso, através de inúmeras pastorais, movimentos e organismos a Igreja, articulada e coordenada pela CNBB tem desenvolvido um trabalho intenso também na dimensão da Fraternidade (com as Campanhas da Fraternidade), na defesa das minorias, contra todas as formas de violência e na defesa de todas as formas de vida, principalmente da vida humana e da Casa Comum.
As ações pastorais, neste contexto, não podem e nem devem ter uma dimensão meramente paternalista ou assistencialista, mas sim, um caráter de ação sociotransformadora, ação libertadora tendo o Evangelho como o seu fio condutor.
Por isso, para que as ações pastorais tenham realmente uma dimensão sociotransformadora e libertadora as mesmas precisam também estar ancoradas nas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, aprovadas em Assembléia Geral dos Bispos do Brasil (CNBB), em abril passado (2026) em Aparecida, a vigorar para o período de 2026 a 2032.
Para que essas ações sociotransformadoras estejam inseridas na dinâmica de uma Igreja Sinodal, em Saída, Samaritana e, também, profética, que faz opção preferencial pelos pobres, luta pela ecologia integral e defende todas as formas de vida, é fundamental que essas ações sejam realizadas com base em um planajamento socio-eclesial, participativo e democrático, reduzindo os espaços de um clericalismo, que representa, nas palavras do Papa Francisco aos jovens italianos reunidos no Circo Máximo, em 13 de Agosto de 2018 “ O clericalismo, que não é só dos clérigos, é um comportamento que diz respeito a todos nós: o clericalismo é uma perversão da Igreja”.
O planejamento e as ações pastorais sociotransformadoras precisam estar embasadas também na Doutrina Social da Igreja, como enfatizado pelo Papa Leão XIV, em sua recente (primeira) Encíclica Magnifica Humanitas, são fundamentais para concretizar a missão da Igreja junto aos mais vulneráveis. Elas garantem que a fé seja expressa em obras, promovendo a justiça, principalmente a justiça social, a dignidade humana e a defesa dos Direitos Humanos e da Natureza (da Ecologia Integral).
Planejamento sem ação é pura perda de tempo, de energia mental e intelectual, não leva a lugar algum.
O planejamento sem ação é, de fato, um exercício incompleto, que não produz resultados e nem tem poder de transformar as estruturas que geram pobreza, exclusão e pecado, neste contexto das ações sociotransformadoras, o pecado social, o pecado ecológico, por exemplo.
O verdadeiro avanço ocorre quando existe equilíbrio entre o planejamento e a ação: o planejamento define a direção e evita o desperdício de recursos, mas a ação é o motor que transforma metas em resultados concretos, lembrando que para haver ação, primeiro é necessário haver vontade, individual, coletiva, comunitária. Sem vontade, nada acontece!
O planejamento, a vontade e as ações são etapas ou passos importantes para combater a omissão que, para a Igreja é um pecado e,por isso, repito, precisa ser combatida.
Para evitar a paralisia do planejamento que sem ações não gera resultados e nem transformações, é fundamental garantir que as ideias “saiam” do papel.
Assim, é importante, considerar bem alguns aspectos como: a) Manter planos simples, b) Criar roteiros flexíveis e ajustáveis, c) Definir prazos reais: Estabeleçer datas limite para o início das tarefas e acompanhar sua evolução e, d) Focar no primeiro passo: A execução imediata gera impulso (momentum), permitindo corrigir a rota durante o processo.
Ação sem planejamento é mero ativismo sem consequências mais profundas, é perda de tempo e de energia vital, também não promove mudanças profundas pois são ações pontuais, na maior das vezes descontinuadas.
A ação sem planejamento gera desgaste, frustração e decepção. Para evitar o esgotamento, a descontinuidade, as frustrações e garantir que os esforços, representados pelas ações, promovam transformações reais e profundas, é essencial alinhar uma sólida base teórica, epistemológica, teológica, sociológica, econômica, enfim, ter clareza estratégica dos propósitos das ações, a direção intencional e a execução consistente.
Para tanto é importante considerar alguns aspectos como: a) Definir o Propósito, a razão das ações; antes de agir, esclarecer a razão central da iniciativa. entender o problema evitando que se gaste energia em soluções superficiais ou em direções opostas ao objetivo final. b) Estabelecer claramente os objetivos e as metas a serem atingidas.
É importante também utilizar uma metodologia eficiente, já testada, clara, para a definição dos objetivos, das metas, como, no caso da Igreja, recomenda-se utilizar o Método VER, JULGAR/ILUMINAR e AGIR.
É também importante detalhar os objetivos e metas de forma mais específica, mensuráveis, alcançáveis, relevantes e temporais. Isso cria pontos de referência claros, importantes na avaliação e mensuração dos resultados e do sucesso das iniciativas/ações implementadas.
Estabelecer tambem um “Plano” bem detalhado das ações a serem realizadas é fundamental. incluindo o estabelecimento do objetivo principal em etapas, ou objetivos “menores” ou pequenas tarefas gerenciáveis.
Definir prioridades e focar mais diretamente no que traz maior retorno, impacto e valor, evitando perda de tempo e de recursos com ações que não produzem impacto signficativo, ou o esgotamento por excesso de volume.
Definir as fontes dos recursos necessários: É importante certificar-se de que possui tempo, energia, recursos financeiros e humanos e as ferramentas necessárias para dar os passos necessários, evitando a interrupção dos projetos e das ações por falta de previsibilidade no início da caminhada.
Costuma-se dizer que é melhor não começar algo do que ser forçado a paralizar as ações “no meio do caminho”, quando isto acontece, gera frustração, desânimo, desestruturação da Equipe e também gera até mesmo revolta ou indignação das comunidades envolvidas.
Estabeleçer um cronograma: onde estejam claros “o começo”, “o meio” e “o fim”, ou seja, estabeleçer as etapas com as metas intermediárias, visando atingir a meta final ou metas finais.
Avaliação e controle, É fundamental promover ajustes ou reajustes, nas diferentes etapas do projeto e das ações, quando necessário Ações eficazes exigem ciclos de revisão e “correção” de rumo. Como destaca a prática de planejamento estratégico, após executar um passo, e necessário analisar o que funcionou, o que não funcionou e o que pode ser melhorado para as próximas etapas.
O papel da Equipe, é importante definir a Equipe e dividir as ações e responsabilidades: o desenvolvimento de qualquer projeto, de uma ou mais ações só terão continuidade e garantirão os resultados esperados se houver uma Equipe imbuida com os mesmos propósitos, objetivos e comprometimento e fundamentos teóricos ou doutrinários.
Participação popular: envolver as pessoas e as comunidades onde os projetos ou ações serão desenvolvidas é fundamental, evitamdo-se a imposição “de cima para baixo”, além de que esta é uma prática autoritária e anti-democrática
Um sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só. Mas o sonho que se sonha junto é realidade! Como diria Raul Seixas em sua música “Prelúdio”, visões compartilhadas têm o poder de romper com as estruturas que geram violência, opressão, pobreza, exclusão, fome e miséria. Só as ações coletivas, comunitárias tem o poder de transformar as comunidades, os países e o mundo.
A Força do Coletivo: a ideia de que objetivos e ideais precisam de união para se materializarem é uma idéia poderosa, que desperta a vontade coletiva por justiça, principalmente justiça social, solidariedade e partilha dos frutos do progresso e dos crescimento econômico.
Quando cultivamos algo apenas individualmente, em nossa mente, isso fica restrito ao nosso próprio universo e as nossas experiências pessoais. Ao dividirmos esse propósito, os sonhos, os ideais com outras pessoas, criamos uma sinergia, uma energia motivadora e revolucionária, um engajamento e a força necessária para que o plano saia do papel, impacte e transforme a realidade, vencendo todos os obstáculos.
Creio que, diante do magistério do Papa Leão XIV, principalmente após as publicações da Exortação Apostólica DilexiTe (focada no amor e cuidado pelos pobres), da Encíclica Magnifica Humanitas (sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial) e da entrada em vigor das “novas” Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, é fundamental, é imperioso, necessário que todas as pastorais, os movimentos e organismos da Igreja, em todas Arquidioceses, Dioceses, Paróquias e Comunidades Eclesiais, cujas atuações estejam no contexto das ações sociotransformadoras, como nos orienta a CNBB, promovam uma readequação, uma revisão e uma re definição de seus projetos, ações e metodologias, valorizando o planejamento participativo, democrático e o trabalho em Equipe, como forma de uma ação evangelizadora mais efetiva, que possibilite “alargar a tenda”, considerando as diferenças e especificidades dos diversos territórios onde a Igreja está presente neste Brasil continental.
Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em sociologia, ativista social, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste. Email [email protected] Instagram @profjuacy Whats app 65 9 9272 0052


























