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Bolsonaro corta R$ 13 milhões da UFMT e reitor prevê futuro tenebroso

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UFMT

reitor da ufmt evandro soares

Reitor da UFMT, Evandro Soares

Com corte de R$ 13 milhões no Orçamento, anunciado pelo Governo Jair Bolsonaro (sem partido), a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) corre riscos de não conseguir honrar compromissos financeiros e possivelmente não continuar oferecendo suporte estudantil, como bolsas de pesquisa, por exemplo.

 

A medida faz parte do pacote de cortes no valor de R$ 1 bilhão e o bloqueio de verbas para as 69 universidades federais, anunciado pelo Governo Federal na aprovação da LOA (Lei Orçamentária Anual) para 2021.

 

“No final do ano a universidade pode, sim, ter problemas financeiros ao ponto de não conseguir pagar alguns dos seus contratos e o ano que vem será, no mínimo, um ano tenebroso”. A declaração é do reitor da UFMT, Evandro Soares da Silva.

 

Ao PNB Online, o professor também falou sobre uma possível volta às aulas em outubro, as manobras que tem feito para cortar gastos e despesas, além de comentar sobre a importância da universidade para a sociedade, que age como agente transformador de vidas.

 

Veja os principais trechos da entrevista

 

PNB Online – As aulas na Universidade continuam sendo ministradas de forma remota? Há previsão de retorno ou as mudanças na forma de ensino tendem a ser permanentes?

 

Reitor Evandro – Não há nenhum interesse por parte da Universidade que isso permaneça. Contudo, em função da covid-19, a UFMT, desde o março de 2020 falávamos sobre a pandemia. Depois de a pandemia decretada, a Universidade criou um comitê, como também o Hospital Universitário Júlio Muller, criamos o Comitê de Prevenção e Combate à Covid-19, e ele baliza nossas atividades administrativas e acadêmicas. Um exemplo é que o comitê traçou um quadro epidemiológico, onde estamos considerando a pior fase possível.

 

Então, nas próximas semanas não há nenhuma possibilidade desse retorno presencial. Conforme for acontecendo a vacinação e outras medidas, e o comitê entenda que é possível voltar parcialmente, ou totalmente, as atividades presenciais, a Universidade voltará às atividades. Há uma previsão de volta às aulas a partir de outubro, mas vai depender do perfil epidemiológico traçado por esse comitê e os conselhos.

 

PNB Online – A UFMT foi apontada recentemente como uma das melhores universidades do mundo. A boa colocação se dá em razão de um quesito em especial: “performance de pesquisas científicas”. O MEC também publicou um levantamento que aponta a UFMT como uma das melhores instituições de Ensino Superior do país, principalmente aos conceitos obtidos pelos cursos de mestrado e doutorado da instituição. Como é esse desenvolvido o trabalho para chegar nesses resultados?

Há uma previsão e volta às aulas a partir de outubro, mas vai depender do perfil epidemiológico

 

Reitor Evandro – Ficamos muito feliz, principalmente com a evolução que a gente está tendo. Seja nos indicadores do Índice Geral de Curso (IGC), a gente observa que nossa nota está 4, mas estamos evoluindo. Quando a gente olha o Ranking Universitário Folha (RUF), observamos que nossa pontuação também está evoluindo. O objetivo da instituição é sempre melhorar a cada dia, porque quando chegar a uma nota máxima não teremos a visão dessa melhoria, e ela precisa ser contínua.

 

O mais importante é a UFMT apresentar melhorias a cada avaliação. Historicamente, desde que a UFMT foi criada ela investiu em expansão e cursos e vagas, na década de 70 e 80. Depois, na década de 90, iniciou-se os programas de pós-graduação: latu-sensu, as especializações como mestrado e etc. A partir de 2004, a UFMT deu um salto quantitativo e qualitativo no quesito pós-graduação e hoje temos mais de 44 programas e a UFMT tem boa relação com outras instituições promovendo os programas em rede, que tem ganhado fomento em pesquisas e pós-graduação. Além disso, a UFMT tem uma relação com a sociedade, através de extensões que analisam problemas sociais, alimentando pesquisa, dando soluções e devolvendo a solução à sociedade.

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PNB Online – O presidente Jair Bolsonaro sancionou o Orçamento, com redução de R$ 1 bilhão para as 69 universidades federais. De que forma esse corte vai impactar a UFMT?

 

Reitor Evandro – Com muita preocupação. Só para se ter uma ideia, em 2013 nosso orçamento de custeio, ou seja, as despesas operacionais como luz, água, telefone e limpeza, por exemplo, era de R$ 113 milhões. Tínhamos também um orçamento de capital de R$ 42 milhões. Hoje, o capital está apenas 10% desse valor. Estamos com um capital de R$ 4,2 milhões e nosso valor de custeio gira em torno de R$ 77 milhões.

 

Quer dizer, quase a metade do que foi há quase 10 anos. Considerando que as universidades, de 2011 pra cá, aumentaram sua quantidade de vagas, de cursos, houve uma expansão significativa, houve a inclusão social, nós aderimos à lei das cotas, onde metade ou mais dos estudantes vêm de escola pública. Mais da metade dos estudantes da universidade não podem ser considerados da classe média ou classe média-alta, temos uma maior quantidade de alunos com renda percapita família de 1 salário e meio, por exemplo. No entanto, desde 2013 os recursos vêm sendo cortados sistematicamente. Esse ano tivemos uma redução de 17% com esse corte, que vai dar uma média de R$ 13 milhões dos R$ 77 milhões, o que vai impactar diretamente no nosso funcionamento.

Mais da metade dos estudantes da universidade não podem ser considerados da classe média ou classe média-alta, temos uma maior quantidade de alunos com renda percapita família de 1 salário e meio

Segurança, limpeza, lembrando da necessidade de aumentar os cuidados com a limpeza por conta da pandemia. Isso tudo sem falar da assistência estudantil. Nós fizemos vestibular para quilombolas, atendemos alunos indígenas, outros programas de inclusão social e que há necessidade de recursos. Perde toda universidade, perde a sociedade e perde o Brasil com esse processo.

 

PNB Online – Qual o plano da UFMT para conseguir caber nesse novo orçamento de R$ 64 milhões, após o corte de R$ 13 milhões?

 

Reitor Evandro – Estávamos prevendo esse corte desde o ano passado e já começamos naquele momento algumas ações. Por exemplo, a readaptação no contrato com a empresa de segurança para que pudesse ser menor e mais eficiente, assim criamos o programa “UFMT Construindo o Futuro”, onde investimentos na compra de câmeras, pois já sabíamos que poderia ter cortes. Então, agora temos quase 200 câmeras em todos os campi da UFMT. Com isso readequamos os contratos com seguranças.

 

Por outro lado, contratos com empresas de limpeza não há como remodelar. Investimos também em painéis fotovoltaicos, pensando em reduzir nossa conta de energia e investir em sustentabilidade. Todas essas medidas e por maior que seja o esforço que a Universidade faz, a gente já saneou todas as dívidas, está tudo direitinho. Quando uma empresa não paga os funcionários, a gente paga direto para salvaguardar seu direito a alimentação, por exemplo. Apesar disso, não será suficiente. No final do ano a universidade pode, sim, ter problemas financeiros ao ponto de não conseguir pagar alguns dos seus contratos e o ano que vem será, no mínimo, um ano tenebroso, com o aumento da inflação, o que reflete na renovação dos nossos contratos. Provavelmente, no ano que vem a UFMT pode ter problemas. No entanto, não vejo esses problemas neste ano. Não corremos risco de fechar, mas precisamos fazer o dever de casa e investir em fontes alternativas, além de reduzir custos.

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PNB Online – Como avalia a tomada de decisão do Governo Federal em relação à Educação do país?

 

Reitor Evandro – Existe um processo quase que dialético. De um lado, medidas tomadas pelo Ministério da Economia de cortar gastos e entendo a Educação como “gasto”, mas a Educação é investimento. É notório que há universidade trabalhando em proposições de vacinas, na fase 1 e 2, onde esses cortes vão atingir a produção de futuras vacinas. Além disso, as universidades trabalham também com o setor produtivo e reduzir investimentos nas universidades significa reduzir soluções inteligentes, eficazes, junto ao setor produtivo, aos movimentos sociais. (…) Há necessidade de um empenho maior não só por parte do Executivo, mas do Legislativo e Judiciário para com a Educação.

A universidade pode, sim, ter problemas financeiros ao ponto de não conseguir pagar alguns dos seus contratos e o ano que vem será, no mínimo, um ano tenebroso

 

PNB Online – Há possibilidade de ocorrer cortes de bolsas, pesquisas ou comprometimento ao ensino?

 

Reitor Evandro – Sim, sem dúvidas. Se esses cortes continuarem nessa sequência, todo ano tendo corte de 10%, 15% ou 18%, não tem como a universidade garantir nem sua operação básica, quanto mais as bolsas. A assistência estudantil também fica comprometida (…) É importante para os estudantes de escola pública se motivar a vir para a UFMT, ter na universidade uma possibilidade de uma melhor condição social. A UFMT tem vários programas, como por exemplo o Programa de Atendimento Imediato (PAI), que fornece pagamento de uma pensão ou hotel, um local onde possa ficar como forma de garantir assistência inicial a estudantes de outras cidades.

A pandemia nos ensinou que não adianta ter dinheiro, se não tem UTI. Isso também nos mostrou a necessidade de valorização do SUS

 

Temos também o auxílio moradia, ou vão morar na Casa do Estudante Universitário (CEU), ou recebe R$ 400 para ajudar no aluguel. Temos o auxílio alimentação, para os estudantes que não podem pagar o Restaurante Universitário (RU) que custa R$ 2,50 por refeição. Estudantes nessas condições de vulnerabilidade econômica recebem auxílio superior a R$ 500 por mês, que acaba ajudando até a família desse estudante. Temos a bolsas de monitoria, bolsa de pesquisas, bolsa de extensão, e diversos programas de assistência estudantil.

 

PNB Online – Gostaria de fazer uma avaliação das lições que a pandemia trouxe para a comunidade acadêmica, e o que fica de legado e de lição.

 

Reitor Evandro – A pandemia trouxe muita tristeza, para cada perda de pessoas, de não poder conviver coletivamente. A troca no ambiente universitário é indiscutivelmente maior de forma presencial, e não perde só a universidade mas toda sociedade. Essa pandemia também trouxe uma reflexão a respeito da importância do conhecimento, da ciência, do desenvolvimento do Brasil. Investimento em ciência e tecnologia é fundamental para sociedade, a valorização do pesquisador, dos profissionais da saúde. A pandemia também nos ensinou que não adianta eu ter dinheiro, se não tem UTI. Isso também nos mostrou a necessidade de valorização da saúde pública, porque se dependêssemos só da saúde privada teríamos muito mais mortes. Essa pandemia ensinou sobre a importância das decisões coletivas, e não apenas uma casta, setor econômico ou político.

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