
Normalmente o termo de comparação é no âmbito da extrema-direita: comparar e aproximar os modos de ação entre diferenças lideranças populistas autoritárias de viés totalitário. É comum, portanto, a comparação entre Jair Bolsonaro, no Brasil, e Donald Trump, nos Estados Unidos. Ambos usam o mito da religiosidade como instrumento de propaganda para os seus negócios políticos.
Mas a comparação, em óbvio, pode ser alargada, buscando outros parceiros nesta empreitada de quem usa Deus na causa. Na causa dos seus interesses da manipulação de corações e mentes do eleitorado conservador mais sensível à palavra de fé e à ideia de que as crenças são inamovíveis, inevitáveis e não podem ser revisadas.
Trazemos uma outra comparação possível, uma provocação para o saudável debate democrático de ideias, coisas e valores: Jair Bolsonaro e Vladimir Putin.
Comecemos pelo Jair, aquele que fez uma declaração pública de amor à tortura, à matança de adversários políticos, mas que é vendido pela propaganda dos pastores evangélicos parceiros como “um homem do bem”, um cristão que segue a palavra de amor de Deus. Na tentativa de se manter no cenário político como uma voz autorizada e legítima de oposição ao governo Lula e à esquerda brasileira, Bolsonaro promove neste domingo (25) uma manifestação em São Paulo. O evento do líder da extrema-direita brasileira tem o apoio financeiro e a presença do pastor Silas Malafaia, da Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo, notório apoiador de Bolsonaro. O pastor evangélico financia a grana para a contratação do trio-elétrico onde o ex-presidente e outros políticos subordinados à ideologia bolsonarista vão discursar.
Lembra a BBC Brasil: em vídeo divulgado no domingo (18.02), o pastor Malafaia pediu aos seus fiéis que orem e façam jejum por 12 horas em “favor da nossa nação” no dia do depoimento de Bolsonaro à PF. Ou seja, um convite para usar os modos da crença em Deus, do cotidiano da religião, para apoiar Bolsonaro, autodeclarado ter sido escolhido de Deus em 2018 para comandar o país.
A parceria com a religião também faz parte das estratégias comunicativas do líder russo, Vladimir Putin. A contrário de Bolsonaro, que tenta se manter vivo na política, Putin se mantém muito vivo e no controle do poder às custas da religião e da morte de opositores do seu regime de viés totalitário.
A DW Brasil destaca a polêmica sobre o corpo do dissidente Alexei Navalny, preso do regime Putin que morreu em colônia penal do Ártico na semana passada. Família acusa regime de Putin de pressionar por funeral secreto de Navalny, sujo o corpo, finalmente, foi entregue à mãe dele. A mãe, Lyudmila Navalnaya, declarou em um vídeo na quinta-feira que as autoridades de Putin queriam forçá-la a realizar um funeral secreto e ameaçaram violar o corpo. Um gesto nada cristão do ditador.
Segundo a filha de Navalny, Yulia Navalnaya, a atitude de Putin parecia movida por ódio e pelo desejo de vingança. “Não, não é nem mesmo ódio, é satanismo, paganismo”. A fé, disse ela, tem a ver com bondade, com misericórdia, com redenção. “E nenhum cristão de verdade jamais poderia fazer o que Putin está fazendo agora com o falecido Alexei.”
No vídeo, Navalnaya, de 47 anos, condenou a guerra de Putin contra a Ucrânia e disse que ele havia transformado a Igreja Ortodoxa Russa em um braço do regime. “Eles estão simplesmente matando, bombardeando civis adormecidos à noite com mísseis que foram abençoados pela igreja”, disse Navalnaya. O Patriarca da Igreja Ortodoxa Russa, Cirilo, é próximo de Putin e um fervoroso apoiador da guerra contra a Ucrânia. Os clérigos russos frequentemente abençoam mísseis em cerimônias públicas.
Sob Cirilo, diz a DW Brasil, a liderança da Igreja Ortodoxa aprofundou junto com Putin a promoção de uma ideologia que funde respeito pelo passado czarista e ortodoxo da Rússia com uma reverência pela vitória soviética sobre o nazismo. Em 2022, em tom crítico, o papa católico Francisco chegou a afirmar que Cirilo não poderia continuar agindo como um “um coroinha de Putin.” Em tempo: como se a Igreja Católica não tivesse o peso de ter apoiado também, no passado recente, outros regimes totalitários que promoveram a matança dos adversários políticos.
As igrejas, seja a Ortodoxa russa ou a brasileira Assembleia de Deus Vitória em Cristo, assumem com Putin e Bolsonaro o papel de partidos políticos a serviço dos seus interesses pessoais.
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