Os dados divulgados pelo Atlas da Mobilidade Social reforçaram algo que milhões de brasileiros já conhecem bem na prática: o ponto de partida para a ascensão social pesa muito mais do que o esforço individual. Quando apenas 8,32% dos jovens brasileiros que nascem entre os 25% mais pobres conseguem chegar ao grupo dos 25% mais ricos, enquanto mais da metade daqueles que já nasceram ricos permanecem no topo, fica evidente que a desigualdade não está sendo superada, mas sim reproduzida de geração em geração.
Essa realidade desmonta por completo o famoso discurso simplista da meritocracia. Afinal, como se pode falar em igualdade de oportunidades quando uma criança cresce sem acesso à educação de qualidade, à saúde, ao lazer, à cultura, a um transporte digno e à segurança alimentar, enquanto outra nasce cercada por todas essas condições? O mérito existe, no entanto ele jamais pode ser analisado de maneira isolada, ignorando as profundas desigualdades de origem.
O estudo também mostrou que raça, gênero e território continuam determinando quem enfrenta as maiores barreiras para romper o ciclo da pobreza. Negros e mulheres encontram obstáculos desproporcionais para ascender socialmente, evidenciando que o racismo, o machismo e a misoginia produzem consequências econômicas concretas. Além disso, quando somamos a isso a negação de direitos básicos como o saneamento ambiental precário, a insegurança alimentar crônica e a exposição constante à violência nas periferias, percebe-se que a pobreza não é apenas a falta de renda, mas a negação sistemática da própria dignidade humana.
Nesse cenário entra a educação, que frequentemente é apresentada como a principal ferramenta de transformação e ascensão social, mas que enfrenta uma contradição central: ela, sozinha, não consegue compensar os estragos causados pelas desigualdades estruturais. Não basta apenas dizer que estudar resolve tudo quando temos milhares de jovens que precisam abandonar a escola para trabalhar, quando o estômago vazio compromete a aprendizagem ou quando a violência e a falta de infraestrutura urbana afetam diretamente o cotidiano das comunidades.
Somando-se a isso, há um outro elemento decisivo nessa equação: o modelo econômico. Um sistema tributário que pesa mais sobre o consumo do que sobre os grandes patrimônios, aliado à concentração de renda e de oportunidades, dificulta ainda mais a mobilidade social. Em vez de combater as disparidades, o sistema acaba contribuindo propositalmente para mantê-las.
Agora, esse debate precisa chegar diretamente a nós, jovens de Mato Grosso. É verdade que diversos estudos apontam a região Centro-Oeste com maior probabilidade de ascensão social, mas essa informação isolada não pode ocultar as assimetrias que persistem dentro do nosso estado.
Por isso, nós — que fazemos parte da juventude do Pantanal, do Araguaia, da Baixada Cuiabana e de tantas outras regiões — precisamos provocar alguns questionamentos incômodos para a sociedade mato-grossense:
O crescimento econômico de Mato Grosso está alcançando toda a população ou apenas concentrando riqueza em poucos setores e grupos?
As crianças, adolescentes e jovens das periferias de Cuiabá, Várzea Grande, Rondonópolis, Cáceres e demais municípios possuem as mesmas condições de vida — incluindo saneamento, moradia digna e segurança — que aqueles que residem nas áreas privilegiadas?
Estamos investindo o suficiente na melhoria da escola pública, no acesso, na permanência dos estudantes até a conclusão dos estudos, no fomento à ciência, à cultura e à formação profissional, ou estamos apenas administrando os sintomas sem enfrentar as suas causas?
Por que ainda vemos tantos jovens sendo forçados a deixar a escola para trabalhar precocemente ou engolidos pela falta de perspectivas?
Por que jovens negros, mulheres, povos indígenas e moradores das periferias continuam enfrentando barreiras intransponíveis para acessar empregos de qualidade, renda justa e o ensino superior?
Estamos realmente construindo um estado que amplia oportunidades ou apenas reproduzindo, geração após geração, as mesmas desigualdades sociais, educacionais e econômicas?
Essas perguntas não buscam negar os avanços conquistados, mas sim provocar uma reflexão urgente. O verdadeiro desenvolvimento não pode ser medido apenas pelo crescimento do PIB, pela arrecadação de impostos ou pelos recordes da produção agrícola. Ele só acontece de fato quando uma criança deixa de ter seu futuro condicionado pelo CEP onde nasceu, pela cor da sua pele ou pela renda da sua família.
E enquanto isso não for tratado como prioridade real, a mobilidade social continuará sendo apenas exceção. Mato Grosso e o Brasil precisam decidir se querem apenas crescer em números ou construir uma sociedade em que o progresso seja compartilhado por todos, e não um privilégio reservado a poucos.
Layan de Moura é estudante de Pedagogia da UFMT, diretor da União Estadual dos Estudantes de Mato Grosso (UEE-MT) e Membro da Campanha Nacional pelo Direito à Educação

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

























