A magistrada Vanessa Cavalieri fez um alerta nesta quinta-feira (29/01) para a escalada da perda da sensibilidade diante de atos de violência, um problema impulsionado pelo ambiente digital. Cães abandonados e moradores de rua são alvo de violência, com atos de crueldade explícitos filmados e compartilhados nas redes sociais. A celebração da violência é incentivada por grupos de extremistas na internet.
A juíza Vanessa Cavalieri, da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro, estuda há anos a radicalização de adolescentes. Em entrevista à BBC News Brasil ela ressaltou sobre essa escalada da dessensibilização da violência:
“O que me chama a atenção é a repercussão que isso está tendo porque, por exemplo, há quase um ano, gravei um vídeo falando sobre o problema da dessensibilização da violência que está acontecendo com crianças e adolescentes”.
A magistrada também destacou o diferente grau de indignação e mobilização entre o caso de violência contra um morador de rua em relação a um cão morador de rua.
“Em março do ano passado, um adolescente do Rio de Janeiro incendiou um morador de rua para transmitir ao vivo no Discord. Entendo que as pessoas fiquem muito mobilizadas com a tortura e morte de um cachorro, mas me impressiona que a repercussão nacional tenha sido maior do que quando um ser humano foi incendiado vivo”.
Ela aponta que a justiça e a polícia já fizeram vários alertas sobre esta questão dos atos de crueldade explícita que são transformados em shows de horrores compartilhados nas redes por grupos criados para promover e celebrar a violência contra cães e gente vulnerável.

Caso de cachorro torturado revela fenômeno de crescimento de atos violência extrema cometidos por jovens
Tanto eu quanto a Lisandrea [Salvariego Colabuono], delegada de São Paulo, e outras pessoas que falam sobre a radicalização online já alertamos que a tortura e os maus-tratos a animais no ambiente digital, por exemplo, no Discord, são muito frequentes.
A Lisandrea, que fica monitorando esses grupos no Discord durante a noite, diz que são, em média, 30 cães e gatos por noite que são torturados e mortos. Ela fez um vídeo falando que, só nesta semana, viu um cachorrinho filhote ter os membros amputados ainda vivo. As pessoas não têm ideia do que está acontecendo.
As pessoas estão divorciadas da realidade. Elas não têm ideia de que o que aconteceu acontece todas as noites em muitas casas do Brasil, com muitos adolescentes com o mesmo perfil desses jovens, todo santo dia. E não é de hoje.
Isso está acontecendo há alguns anos, notadamente depois da pandemia. Acontece diariamente. A gente vem denunciando isso. Existem “panelas” no Discord que fazem isso todos os dias. Me impressiona o quanto as pessoas ainda não entenderam o tamanho do buraco em que nós estamos metidos.
Perda de valores humanistas e cristãos
O caso do cão Orelha chama a atenção pelo grau de mobilização, gerando ondas de indignação legítima contra a crueldade praticada pelos jovens. O contraponto que se soma ao caso é a insensibilidade da sociedade quando atos de violência são praticados contra seres humanos e exibidos nas redes sociais. Essa indignação seletiva é, também, uma forma de violência. É a perda total de valores humanistas e cristãos. Vale lembrar que grupos em situação de vulnerabilidade no Brasil continuam a ser os principais alvos de violência, com números alarmantes em 2024 e no início de 2025. Mulheres, população negra, pessoas LGBTQIA+ e jovens são os mais afetados, enfrentando violência física, psicológica, sexual e letal. A vulnerabilidade é intensificada por fatores como falta de renda, moradia precária e racismo estrutural.


























