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RENATO GOMES NERY

Advogado vítima de atentado alertava sobre perigo do armamento da população

Nery, além de jurista militante com atuação em Cuiabá, é articulista e escreve sobre diversos temas, em textos publicados em veículos da capital.

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(Foto: Reprodução)

Na manhã desta sexta-feira (05.07), o advogado Renato Gomes Nery foi vítima de tentativa de assassinato em frente ao seu escritório de advocacia. Nery, além de jurista militante com atuação em Cuiabá, é articulista e escreve sobre diversos temas, em textos publicados em veículos da capital e em seu próprio site. Nos últimos anos, em alguns deles, dedicou-se a alertar sobre os riscos do armamento da população e da consequente escalada da violência.

Em um deles, publicado em 2022, Nery reflete sobre a banalização da vida, condenando o uso de armas de fogo e afirmando que sua venda sem controle é uma exortação à morte. “Mata-se propositalmente e por cruel e manifesta omissão”, traz o texto que termina citando Carl Sagan e lembrando que “apesar do cinismo, a bondade existe e deve ser valorizada”.

Leia também: Política armamentista levou a boom no registro de armas em MT

Em um texto mais recente, publicado no último mês, o jurista critica a aquisição de privilégios e prerrogativas excessivas na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e condena a ideia de armar advogados, argumentando que armas servem apenas para matar. Nery destaca que a verdadeira luta dos advogados deve ser pela democracia e liberdade, e não pelo porte de armas.

Confira o texto na íntegra:

Advogados armados

George Orwell, narrou num dos seus livros mais emblemáticos, chamado Revolução dos Bichos, a implantação de uma ditadura numa granja. Uma das coisas que estes regimes não abrem mão é dos privilégios. No referido livro, Ele cunhou a frase: “Todos são iguais, mas têm uns que são mais iguais que os outros”. É famosa a classe dominante na Rússia, após a implantação do regime comunista, chamada de Nomenclatura.

Outro dia fui acusado de estar sempre criticando a Instituição que presidi (OAB/MT). Não deixa de ser pertinente essa crítica, mas as que faço são salutares para tentar corrigir os desvios que a maioria absolve por comodidade e por desconhecimento. E maior delas é contra aquisição por mais e mais prerrogativas (privilégios), com se os advogados fossem uns idiotas que além de serem tributários de tudo quando é benefício, precisassem de ser tutelados pelo seu Órgão de Classe.

Fiz dois artigos, recentemente, neste sentido, um contra a isenção de pagamento de custas judiciais por advogados na execução de honorários advocatícios. E outro, porque nenhuma voz se fez ouvir, quando o TJMT cortou os nomes todas a mulheres (as mais votadas) que compunham Lista Sêxtupla do Quinto Constitucional que lhe foi encaminhada pela OAB/MT. Tudo isto aconteceu mediante o silêncio das mulheres que compõem aquele Sodalício, que é presidido por uma mulher, bem como da Presidente da OAB/MT.

Entretanto, achava que não iria, tão cedo, escrever sobre assunto ligado a advogados, mas deparei com a notícia na imprensa de que um dos nossos representantes no Conselho Federal da OAB e membro de sua Diretoria pretende armar os advogados. Com certeza, irá constituir um exército, pois o Brasil tem um milhão e cem mil (1.100.000) advogados.

Para que serve arma de fogo? Única e exclusivamente para matar! Casos isolados de incidentes com advogados não justificam dar armas deliberadamente para todos eles. E se algumas autoridades têm direito ao porte de arma especial, a luta deveria ser para desarmá-los e não para, em nome de uma duvidosa isonomia, constituir um exército. As armas dos advogados são outras, na preservação da democracia e a liberdade. O direito ao porte de armas deve ser a quem e nas condições, em que a lei estabelece para qualquer cidadão e, não ser deliberado e especial para alguns eleitos, somente por pertencer a um segmento ou a uma classe profissional. Ressalvadas, entretanto, as profissões ligadas a segurança e à repressão ao crime.

Não se pode e nem se deve fazer proselitismo com um assunto tão sério, de consequências desastrosas e imprevisíveis.

Episódios recentes demonstram claramente que ainda não estamos livres nem da violência e nem dos violentos, e tudo começou com a indiscriminada liberação de armas e munições que quase leva a reboque, a nossa frágil democracia. Já temos violência demais no mundo. Que Deus nos proteja dos belicosos que querem aumentar a distribuição de armas, sob qualquer pretexto.

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