(Se puder, leia isto ouvindo um blues antigo: Dark Was the Night, Cold Was the Ground, de Blind Willie Johnson.)
Hoje me ocorreu uma coisa difícil de admitir: estamos matando a universidade pública. Depois de tanta luta, tanto suor, chegamos a isto. Não com golpes espetaculares, não com decisões que ocupam manchetes. Estamos matando devagar. Como essas doenças silenciosas que entram no corpo sem febre nem dor, apenas um cansaço que se espalha aos poucos, até que um dia tudo já esteja tomado.
Há pequenas coisas acontecendo o tempo todo. Ajustes técnicos. Mudanças administrativas. Sistemas novos. Relatórios. Nada parece grave quando visto isoladamente. Mas o acúmulo dessas pequenas coisas vai corroendo a universidade por dentro. Dia após dia. Quase sem que percebamos.
Tudo isso me deixa com um pessimismo que não consigo esconder.
As investidas contra a universidade vêm de longe. Salários defasados. Aposentadorias encolhendo. Cortes sucessivos de orçamento. Direitos desgastados lentamente. Venho assistindo a isso há tempo demais. Mas em algum momento recente algo mudou de intensidade. A destruição deixou de parecer acidente. Passou a se parecer com projeto. E projetos quase nunca aparecem nos grandes ataques. Eles preferem o cotidiano. As engrenagens discretas. Os pequenos dispositivos que se acumulam sem fazer barulho.
Monitoramento de atividades. Sistemas que começam a tratar o pensamento como linha de produção. Planejar. Registrar. Validar. Justificar.
Sempre justificar. Sempre justificar.
Como se pensar precisasse de relatório para existir. Enquanto isso a vida acadêmica vai ficando mais pesada. A plataformização multiplica tarefas invisíveis. Horas inteiras escorrem para dentro de sistemas que prometem organização e entregam exaustão. As salas de aula ficam mais cheias. Os formulários mais numerosos. Os relatórios mais detalhados.
Há uma deterioração evidente das condições de trabalho.
Mas talvez haja algo ainda mais inquietante: uma deterioração da própria ideia de universidade. Enquanto discutimos formulários e relatórios, outra lógica se instala silenciosamente. Métricas. Rankings. Impacto. Desempenho. Produtividade. Aos poucos, o conhecimento começa a falar a língua do mercado. E o pensamento vai sendo traduzido em números.
Às vezes me ocorre uma sensação difícil de admitir: talvez não existam mais universidades como aquelas que conheci. Talvez não existam mais professores como aqueles que me ensinaram a pensar. A universidade pela qual lutei durante décadas parece estar se tornando outra coisa. Talvez apenas uma sombra daquilo que foi.
O que vemos hoje lembra o processo que já ocorreu com o ensino básico no Brasil. Primeiro a precarização. Depois o esvaziamento. E por fim a naturalização da perda.
Mas há algo que me inquieta ainda mais.
Quando, mesmo no campo que se diz progressista, começa a surgir uma visão quase cartorial da universidade. Uma universidade-cartório. Atividades registradas. Validadas. Justificadas. Revalidadas. O trabalho intelectual traduzido em formulários. Planos individuais de trabalho. Relatórios anuais. Inventários de atividades. Plataformas digitais que registram cada gesto da vida acadêmica. E então começo a me perguntar: que trabalho docente estamos tentando regular? O trabalho de pensar? O trabalho de ensinar? O trabalho de formar pessoas? Ou o trabalho de preencher sistemas? Em que momento produzir conhecimento virou produzir relatórios sobre conhecimento?
O curioso é que tudo parece razoável.
Planejamento parece razoável.
Transparência parece razoável.
Organização institucional parece razoável.
Mas há um momento em que o razoável começa a sufocar. Quando o ciclo administrativo – planejar, registrar, validar, justificar, corrigir, revalidar – passa a ocupar o centro da vida universitária, algo se inverte. O foco deixa de ser o pensamento. Passa a ser a administração do pensamento. O professor deixa de ser sujeito de uma prática intelectual. Passa a ser objeto de gestão. E então acontece algo ainda mais silencioso. Começamos a interiorizar o controle. Passamos a vigiar uns aos outros. A medir uns aos outros. A comparar relatórios. Cada um se torna fiscal de si mesmo. Transformamo-nos em microempresários de nós mesmos.
Talvez seja isso o que mais me assusta.
Não apenas os ataques vindos de fora.
Mas a forma como começamos a reproduzir dentro da universidade as mesmas lógicas que historicamente a ameaçaram. Competição permanente. Controle difuso. Gestão por métricas. Suspeição institucional.
Às vezes me pergunto se não serão justamente alguns – tão convictamente progressistas – que acabarão ajudando a desmontar a universidade que dizem defender.
E então penso nos meus alunos – nos meus orientandos e orientandas que ainda sonham em ser professores universitários. E me pergunto se este será o mundo que vamos deixar para eles. Uma universidade cansada. Burocratizada. Exausta de tanto se administrar. Uma universidade que substituiu o risco do pensamento pela segurança do formulário. Uma universidade que aprendeu a medir tudo. Exceto aquilo que realmente importa.
Às vezes imagino essa universidade como um prédio antigo no fim da tarde. Corredores longos, salas cheias de livros, quadros negros ainda marcados de giz. A luz vai diminuindo devagar e as salas vão ficando vazias.
Uma janela ficou aberta.
O vento entra e espalha papéis pelo chão.
Relatórios.
Planos.
Inventários de atividades.
Tudo continua sobre as mesas.
Mas o pensamento já não mora mais ali.
Pedro Paulo Gomes Pereira é antropólogo e professor titular de Antropologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online


























