Imaginemos o início de um dia comum. Abrimos o telemóvel “só por um instante”. Desfilam imagens soltas: um vídeo de quinze segundos sobre uma polémica política, alguém a tropeçar, um gráfico sobre inflação, um meme que mal percebemos. Um despertar feito de flashes, como se o mundo nos chegasse por estilhaços. Pousamos o telemóvel. Resta uma sensação difusa: muita coisa a acontecer, quase nada a permanecer.
Talvez por isso tenha ressoado uma frase dita há dias por Daniela Braga, fundadora da Defined.ai, empresa global de origem portuguesa que fornece dados para treinar inteligência artificial. Dizia: “será melhor estudar filosofia do que programação.” Num tempo moldado pela IA, esta frase curta aponta o essencial: compreender o mundo exige uma capacidade que (ainda) é exclusivamente humana – a de interpretar, de sentir e de organizar o que nos atravessa. A técnica progride; mas o sentido continua humano.
A forma como nos relacionamos com os media revela bem esta tensão. Os acontecimentos chegam-nos hoje de forma rápida e fragmentada, num fluxo contínuo que pede reação imediata. A paisagem digital tornou-se um corredor de estímulos breves, onde a atenção saltita de imagem em imagem, sem continuidade. Muitos estudos mostram como este modo de perceção gera uma turbulência silenciosa: vemos muito, entendemos pouco.
Se olharmos para a forma como a informação circula, reconhecemos o padrão. Um título é afinado para o choque, um vídeo aparece cortado no instante mais tenso, uma imagem repete-se até perdermos o contexto. Instala-se uma fadiga discreta – não do corpo, mas da atenção – que nos faz avançar de tema em tema, sem encontrar um lugar onde pousar. Ficamos à superfície dos acontecimentos, sempre a caminho do próximo estímulo, raramente dentro do que importa. É neste ambiente de perceção aos solavancos que a atitude filosófica se torna essencial: só um olhar capaz de interpretar, ligar e dar sentido pode contrariar a lógica fragmentada que a tecnologia impõe.
É também aqui que o jornalismo encontra o seu lugar. E talvez nenhum jornal o saiba tão bem como um regional. Um jornal como o Diário de Coimbra não junta factos: compõe o território, dá continuidade a uma comunidade que, nas redes sociais, surge dispersa. Ajuda-nos a reconhecer a cidade para lá do ruído; a identificar o que muda, o que permanece, o que merece atenção.
Recuperar a possibilidade de acompanhar o mundo com alguma lentidão talvez seja uma das tarefas decisivas do tempo presente. Ver na vida pública mais do que um fluxo de estímulos: reconhecer histórias que pedem interpretação e cuidado. É neste contexto que a frase de Daniela Braga é tão atual: sem pensamento, a técnica corre sozinha. E talvez o gesto mais urgente seja aquele que nos ensina a filosofia: aprender a olhar devagar, a pensar.
Esta é a minha primeira crónica no Diário de Coimbra. Será este o tom: olhar o presente com tempo, para o compreender antes de reagir. A técnica acelera; o sentido, esse, tem de ser reencontrado devagar.
Gil Baptista Ferreira é professor de estudos dos media na ESEC

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

























