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ARTIGO

Fé e política ou fé e cidadania

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Quando falamos de fé, sempre é bom mencionar que existem, pelo menos dois tipos de fé (religiosa), de um lado a chamada fé engajada e libertadora e de outro lado a fé “intimista”, subjetiva, alienada e alienadora.

Uma fé libertadora é uma vivência religiosa engajada, comprometida com mudanças sociotransformadoras que, baseada na reflexão e no amor verdadeiro ao próximo, principalmente os excluídos e pobres, promove, através da mobilização profética, de forma coletiva, a emancipação das opressões internas (medo, insegurança, abandono, pecado) e externas (violência, exclusão, preconceitos, exploração, enfim, injustiça social).

Enquanto isso, uma fé alienada, alienadora, intimista e subjetiva é caracterizada por uma crença religiosa ou espiritual que desconecta o indivíduo da realidade social, crítica e prática, gerando passividade, falta de pensamento próprio e, muitas vezes, indiferença diante do sofrimento alheio. É uma fé que foca apenas no ritualismo e no “outro mundo”, na dimensão transcendental, ignorando o compromisso com o próximo, pode também gerar fanatismo e formas nefastas de exploração e até “escravidão” de seus adeptos, sujeitos inclusive `a lavagem cerebral, como inúmeros exemplos que podem ser identificados ao longo da história. (Vide, por exemplo, os casos de Jim Jones na Guiana e de David Koresh, no Texas e tantos outros mundo afora, inclusive no Brasil.

Existe uma grande polêmica permeando as discussões sobre fé e política e ou fé e cidadania, diante da qual precisamos aprofundar nossas reflexões, principalmente em um ano eleitoral como este de 2026, quando em outubro/novembro próximo iremos eleger deputados estaduais, federais, dois terços dos senadores, governadores e o Presidente da República.

Muita gente condena que nas Igrejas (tanto cristãs quanto não cristãs) as questões políticas sejam objeto de reflexão, de discussões e debates, principalmente por ocasião dos períodos eleitorais. Todavia, é importante lembrar que, independente de nossas crenças, nossas religiões e nossas “filosofias” e ideologias, somos cidadãos e cidadãs e, acima de tudo, contribuintes e, como tais, precisamos dialogar profundamente sobre a importância da política e o significado das eleições, livres, soberanas e democráticas, relembrando que o “voto de cabresto” faz parte de um passado histórico muito triste em nosso país (vide a obra “Coronelismo, enxada e voto”, autoria de Victor Nunes Leal, publicado em 1948).

Como cidadãos, cidadãs e contribuintes podemos e devemos nos preocupar com os rumos que a políticas e a gestão pública podem tomar, as vezes e muitas vezes para bem longe do bem-comum, da ética, da moralidade, do cuidado com quem vive na exclusão, sem desfrutar da dignidade que todas as pessoas devem ter, pelo simples fato de que todos e todas somos criaturas, filhos e filhas de um mesmo Deus, pouco importa nossas crenças.

Daí a importância de refletirmos, tanto individual quanto e, principalmente, coletivamente e, neste caso (coletivamente) essas reflexões devem ser feitas em todos os espaços em que as pessoas se agregam, inclusive nas Igrejas, nos sindicatos, nas comunidades, nos bairros e, assim por diante.

O exercício da política como ações voltadas para o bem comum exige que ao exercer cargos e funções públicas, todos os representantes eleitos ou “nomeados” devem prestar contas de suas ações a quem delegou a eles o mandato, lembrando que a Constituição Federal de 1988, estabelece, de forma clara, que “todo o poder emana do povo…” e é a este povo que elege e paga impostos que os políticos e gestores públicos devem prestar contas de seus mandatos e do exercício de seus cargos e funções. A transparência, a moralidade, a ética, a eficiência, a eficácia e a efetividade não é favor, e mandamento constitucional e legal, como se diz e “ponto final”.

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Os políticos e gestores públicos, em última instância, são “procuradores” do povo, ou seja empregados do povo (muito bem pagos, por sinal, não precisando de roubar dinheiro público, via corrupção), nem buscar um ou mais mandatos para se locupletarem, enriquecerem-se pessoalmente ou através de seus familiares e “amigos/amigas” (os asseclas) mais chegados, que em alguns momentos se tornam os famosos “laranjas”, em nome de quem os políticos corruptos escondem o produto de seus roubos.

Por isso é que não podemos considerar o VOTO como uma mercadoria sujeito a compra e venda; mas sim, como uma arma do povo, um instrumento da cidadania, que tem como compromisso maior não apenas a escolha de futuros mandatários, mas sim, o fundamento mais importante da Democracia, de um estado democrático de direito.

O voto vendido, mesmo que possa beneficiar imediata e diretamente o eleitor corrupto, alienado; a longo prazo favorece o surgimento e a perpetuação do político velhaco e corrupto, que favorece o “orçamento secreto”, as emendas “pix”, a familiocracia e tantos outros esquemas que os veículos de comunicação e os órgãos de controle denunciam diuturnamente, mas que, lamentavelmente, acabam sob o manto da impunidade.

Assim, quando falamos de estado democrático de direito não estamos falando do “estado mínimo” para os pobres e excluídos, alheio às necessidades, aspirações dos pobres, mas, em sendo mínimo para os pobres este é o “estado máximo” para os ricos, para os poderosos e que contribui para a acumulação de renda, riqueza, propriedade e privilégios em poucas mãos, via políticas públicas de renúncia fiscal e subsídios para os grandes grupos econômicos, de complacência com os grandes sonegadores (contumazes e protegidos) enquanto “falta recursos” para as políticas públicas para reduzir as desigualdades sociais, regionais e econômicas, para promover condições que representam qualidade de vida para a população como um todo, principalmente para as camadas pobres e excluídas.

Recetemente, dando continuidade às reflexões iniciadas pelo Papa Francisco antes de seu falecimento, o Papa Leão XIV, ao publicar sua primeira Exortação Apostólica “Dilexi Te” (Eu te amei), sobre a questão dos pobres e da pobreza, o mesmo enfatizou na forma de um apelo, sugerindo “um empenho que não se limite apenas a aliviar momentaneamente a pobreza, mas que busque eliminar suas causas. Por isso, nos passos do Papa Francisco, ele convida a delinear uma política com os pobres e para os pobres, que seja concebida a partir deles; com realismo, ele observa que isso requer uma escuta real das pessoas que conhecem a precariedade de parte dos políticos e dos profissionais da assistência social — e das instituições eclesiais. “Se políticos e profissionais não os ouvirem (os pobres), a democracia se atrofia, torna-se um nominalismo, uma formalidade, perde representatividade e vai se desencantando de seu destino.”

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É neste sentido e contexto que as reflexões sobre Fé e Política, Fé e Cidadania precisam ser exercitadas diuturnamente e não apenas `as vesperas das eleições, isto só pode ser feito através de uma fé engajada que promova a dignidade e a libertação do povo, muitas vezes escravizado por uma economia da morte (na palavras do Papa Francisco), na exploração dos trabalhadores, na institucionalização de todas as formas de violência, pela mentira, pelas “fake news”, pelo ódio de um radicalismo sem limites, de muita demagogia, da manipulação da pobreza e dos pobres através de políticas públicas ancoradas no paternalismo, no assistencialismo que apenas perpetuam a pobreza e explora os pobres.

Gostaria de finalizar esta reflexão transcrevendo um parágrafo do artigo “O amor aos pobres : caminho de compaixão e libertação”, de autoria de Marcos Aurélio, Assessor da Escola Fé e Política Padre Sabino e membro do CEBI RN publicado no Site do CEBI em 31/12/2020, mas que guarda uma atualidade incrível com os dias atuais, quando ele diz “Hoje não é diferente. Assim como no tempo de Jesus, os pobres vivem debaixo de múltiplas opressões. Sofrem com os baixos salários, desemprego, doenças, preconceito e exclusões, por muitas vezes, apenas pelo fato de serem pobres, sobretudo os marginalizados que vivem nas regiões periféricas dos centros urbanos, ou nas regiões rurais e ribeirinhas. Os pobres vivem um outro mundo, a sociedade dominante os empurrou para um lugar onde não fossem capazes de se misturar com os que se denomimam uma “classe superior”. Por isso, os pobres construíram um mundo paralelo com outra cultura, diferente, nos lugares baixos, onde com poucos recursos lutam diariamente para sobreviver em meio às maléficas investidas do capitalismo que gera injustiças e desigualdades. As famílias periféricas vivem a luta diária pela sobrevivência, com arranjos para moradia e esforços gigantescos para comprar comida, remédio como também para suprir outras necessidades básicas”.

Em minha opinião este é o retrato da falta de dignidade humana, a começar pelo drama da falta e precariedade das Moradias Populares na atualidade brasileira e que é, novamente, objeto da Campanha da Fraternidade da CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, em 2026 – Fraternidade e Moradia, cujo Lema “Ele (Cristo) veio morar entre nós”, demonstrando que os desafios sociotransformadores, de natureza política, precisam ser iluminados pela LUZ DO EVANGELHO, onde são conectadas FÉ E POLÍTICA e FÉ E CIDADANIA! Esta deve ser a tônica quando falamos em Fé e Política ou Fé e Cidadania em nossas Igrejas Cristãs e não Cristãs, também.

Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste. Email [email protected] Instagram @profjuacy Whats app 65 9 9272 0052

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