
Na Praça Popular, em Cuiabá, uma banca de revistas se tornou ponto de encontro para colecionadores de todas as idades. O que começou como uma simples troca de figurinhas se transformou em um festival que reúne centenas de pessoas em busca de completar os álbuns da Copa do Mundo, reduzir gastos e socializar.

O movimento gira em torno de um problema conhecido por quem coleciona: o custo. Cada pacote com sete figurinhas custa R$ 7, e o álbum sai por R$ 24,90 (capa simples) ou R$ 74,90 (capa dura). Em um cenário ideal, considerado improvável, seria possível completar as 980 figurinhas com gasto mínimo de R$ 1.004,90. Na prática, a repetição de cromos torna a troca quase inevitável.
“Fechar sozinho custa caro e é muito difícil”, diz a comerciante Alessandra Pereira de Libera, que está à frente da banca há 17 anos, dos 38 que o ponto existe. A ideia de organizar trocas surgiu em 2014, quando ela enfrentou dificuldades para completar um álbum do filho. “Comecei a chamar o pessoal. Na época, a gente já era o ponto mais conhecido e o pessoal sentava até no chão”.
Hoje, o encontro ganhou escala e nome. “Antes era só troca. Agora é Festival de Figurinhas, com patrocínio e tudo. Cresceu”, afirma. Durante a semana, o movimento se intensifica no fim da tarde; aos fins de semana, ocupa o dia inteiro e pode avançar pela noite. Segundo Alessandra, não há uma contagem exata, mas os picos já lotaram o espaço a ponto de faltar mesa. “A gente pediu mais estrutura para o patrocinador e mesmo assim não coube todo mundo”.
A coleção oficial da Copa reúne 980 cromos, sendo 68 metalizados. As figurinhas mais raras, da categoria “Legends”, são as mais cobiçadas. Entre elas, a do brasileiro Vini Júnior. Esse grau de escassez alimenta tanto o mercado informal quanto a lógica da troca.

Na banca, a proposta é conter a especulação. Alessandra afirma que incentiva a troca direta entre frequentadores. “Tem gente que vende figurinha rara por valores altos, mas não é essa a ideia aqui. É uma moeda de troca para economizar no álbum”.
O ambiente atrai públicos diversos. Crianças, jovens, adultos e idosos dividem espaço nas mesas. Segundo a comerciante, o álbum virou também ferramenta de socialização e estímulo cognitivo. “Tem médico, psicólogo e geriatra indicando. Para idosos, é conexão. Para crianças, foco. Para famílias, é convivência”.
Histórias pessoais se cruzam no local. O estudante Pedro Ratters, 13, começou o primeiro álbum poucos dias após chegar dos Estados Unidos para visitar a avó. “Ainda faltam umas 200 figurinhas”, diz. A avó, Elvira Oliveira, conta que comprou o álbum para o neto e entrou na dinâmica das trocas. “Ele pegou a febre e acompanho ele”, contou à reportagem do PNB Online.
Para Roseane Vilela, o festival virou programa de família. Ela acompanha o filho Leone, 6, na busca pelas figurinhas. “É a terceira vez que a gente vem. Onde tem troca, a gente tenta parar”, afirma. O álbum dele está cerca de 70% completo.

Além do aspecto afetivo, o evento também sustenta o negócio. A Copa representa um período de alta para a banca “Depois passa quatro anos sem vender nesse nível. É preciso ter persistência para chegar até a próxima”, diz Alessandra. Após quatro edições, o festival consolidou a banca como um espaço que mistura comércio e convivência. “É nostalgia, amizade e família. Quem senta aqui e observa, vê histórias o tempo todo”, afirma a comerciante.
























