
Celebrado em 23 de abril, o Dia Mundial do Livro é, para especialistas, uma oportunidade de refletir não só sobre o hábito de leitura, mas também sobre as condições de produção e circulação da literatura. Em Mato Grosso, esse debate passa, inevitavelmente, pela diversidade de vozes que escrevem no estado e pelos desafios para que esses textos cheguem ao público.
Ao PNB Online, dois membros da Academia Mato-Grossense de Letras, a professora e pesquisadora Olga Maria Castrillon-Mendes e o escritor e jornalista Lorenzo Falcão, traçam um panorama que combina riqueza criativa e gargalos estruturais.
Para Olga, falar em uma identidade única da literatura mato-grossense já não faz sentido. “Se nós formos pensar […] de 1719 a 2026, estamos com séculos de construção de ideias, de mentalidades, de processos coloniais, de migração”, afirma. Nesse percurso, segundo ela, a noção de identidade se transforma. “Hoje, a gente pode pensar que não há uma única identidade mato-grossense. As identidades são múltiplas, multifacetadas”.
A professora defende que essa pluralidade se reflete nas temáticas e nas formas de escrita. Há autores ligados à terra e ao regional, outros que exploram conflitos sociais e ainda aqueles que se aproximam de uma literatura mais universal. “O livro que é produzido dentro dessa perspectiva se universaliza, porque são sentimentos humanos que estão sendo tratados”, diz. Nesse cenário, a produção local dialoga com referências amplas e não se limita ao território.
Lorenzo Falcão, por sua vez, adota uma formulação que, segundo ele, sintetiza o fenômeno: “literatura brasileira produzida em Mato Grosso”. Para o escritor, o histórico de intensos fluxos migratórios ajuda a explicar a diversidade. “A riqueza de qualquer manifestação cultural tem muito a ver com uma palavra específica, que é a diversidade”, afirma. Ele observa que, tanto na prosa quanto na poesia, há liberdade formal e temática, ainda que elementos do regionalismo permaneçam presentes.
Apesar da vitalidade criativa, a circulação dos livros ainda é um dos principais entraves. Olga aponta que o problema é histórico e persiste mesmo com o surgimento de editoras locais. “Nós não temos circulação do livro, que é a grande problemática”, resume. Segundo ela, a cadeia que envolve escritores, editoras, escolas e políticas públicas ainda precisa avançar em diferentes pontos.

A docente destaca o papel das universidades, como a Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) e a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), na formação de pesquisadores e na difusão da produção literária. “Se os textos não são conhecidos, como é que os professores lá na ponta vão levar para os alunos?”, questiona. Ela também defende programas públicos de distribuição de livros, especialmente nas escolas, como forma de ampliar o acesso.
Para Lorenzo, as universidades foram decisivas para consolidar uma comunidade literária no estado. “A literatura produzida em Mato Grosso só é o que é graças ao trabalho das universidades”, afirma. Ele vê um ambiente fértil, com aumento de produção e interesse acadêmico, o que tende a fortalecer o campo literário.
Esse movimento também se expressa na emergência de novos autores. O escritor relata que é frequentemente procurado por jovens interessados em publicar. “Essa moçada nova está chegando, está exigindo visibilidade”, diz. Segundo ele, essa geração escreve a partir de experiências individuais, mas atravessadas por um contexto contemporâneo marcado por tensões sociais. “O mundo vai de mal a pior, mas é onde a gente vive, provavelmente, a nossa principal fonte de inspiração.”
Na Academia Mato-Grossense de Letras, iniciativas como o projeto Casa Aberta buscam aproximar diferentes públicos da leitura, incluindo jovens de escolas públicas e participantes de slams e batalhas de rima. “Leitura serve para formar cidadãos mais conhecedores das complexidades do mundo contemporâneo”, afirma Lorenzo.

Diante desse cenário, o significado de celebrar o livro hoje vai além de uma data simbólica. Olga propõe uma reflexão sobre o próprio objeto livro e seu lugar no mundo contemporâneo. “O livro é um objeto de prazer, de conhecimento, de ideias. É um mundo todo que se coloca na mão do leitor”, diz. Para ela, a comemoração deve servir como ponto de partida para discutir acesso, incentivo e valorização.
Lorenzo complementa ao enfatizar o caráter coletivo da literatura. “Celebrar o livro significa valorizar um produto que traz como matéria-prima a palavra, o pensamento, a capacidade do ser humano de escrever individualmente, mas compondo uma grande teia coletiva”.


























