Mato Grosso avança. Expande-se em números, cidades e produção. Há, contudo, um plano menos visível desse movimento que exige igual atenção: o simbólico. Nenhuma sociedade se sustenta apenas no que constrói materialmente; precisa reconhecer-se naquilo que narra, preserva e imagina. E reconhecer-se, em larga medida, é saber ler a própria literatura.
A dinâmica demográfica recente revela um território em permanente recomposição. Chegam pessoas de diferentes regiões, trazendo outros repertórios culturais, outras referências de mundo. Esse encontro é fecundo, mas impõe uma tarefa silenciosa: formar um horizonte comum — que não se estabelece apenas pela convivência cotidiana, mas se projeta e se consolida quando uma comunidade partilha histórias, imagens e linguagens capazes de dizer o lugar onde vive.
É nesse cenário que a literatura mato-grossense ganha ainda maior relevo. Longe de qualquer provincianismo, constitui via de compreensão mais profunda do próprio Estado. Ler seus autores é entrar em contato com as inflexões da paisagem, com a cadência da fala, com tensões históricas e com modos de sentir sedimentados ao longo do tempo. O Pantanal, o cerrado, as cidades e suas margens deixam de ser apenas geografia para se converterem em experiência estética.
O acervo literário produzido em Mato Grosso revela diversidade e vigor. Em Dom Aquino Corrêa, a poesia se organiza sob rigor formal e dicção elevada, marcada por erudição e inspiração religiosa, em diálogo com a tradição literária de seu tempo. Manoel de Barros, por sua vez, volta a linguagem ao ínfimo e ali encontra potência expressiva, deslocando o olhar para o que costuma passar despercebido. Em Silva Freire, a palavra se faz construção, tensionando forma e sentido em chave experimental. Longe de um formalismo fechado, sua poesia incorpora elementos da cultura local — redeiras, vaqueiros, lavradores, pescadores, oleiros — e os eleva a uma dimensão simbólica mais ampla, conferindo visibilidade a saberes tradicionais. Ao fazê-lo, articula vanguarda estética e afirmação cultural, produzindo uma escrita que, ao se enraizar na experiência cuiabana, projeta-se como expressão de alcance universal. Já Wlademir Dias-Pino amplia o campo da poesia ao integrar dimensão visual e estrutura textual, levando a investigação formal a um limite mais radical.
Na prosa, Ricardo Guilherme Dicke desenvolve narrativas de alta densidade, marcadas por introspecção e elaboração rigorosa da linguagem. Já Tereza Albues, sobretudo no romance, constrói uma escrita voltada à memória e à experiência subjetiva, explorando com sensibilidade temas como deslocamento, identidade e pertencimento.
Outras vozes ampliam esse panorama. Lucinda Persona desenvolve uma poesia de precisão e contenção, na qual o cotidiano se converte em campo de percepção e elaboração estética. Seu olhar se detém sobre coisas mínimas, objetos, alimentos, cenas da casa e instantes reiterados da rotina, ressignificando o banal e abrindo-o a questões mais fundas, como o tempo, a ausência, a finitude e a compreensão de si.
Ao lado dessa vertente mais introspectiva e concentrada na experiência do cotidiano, outras vozes ampliam o panorama da literatura mato-grossense. Marília Beatriz de Figueiredo Leite transita entre criação literária e reflexão cultural, contribuindo também para a organização do campo literário local. Luciene Carvalho desenvolve uma poesia de feição lírica, voltada à experiência sensível, à identidade e ao cotidiano, com linguagem direta e comunicativa, sem abrir mão de elaboração formal e densidade expressiva.
Já Ivens Cuiabano Scaff, na prosa e também na poesia breve, registra com sensibilidade a experiência urbana e os traços da cultura cuiabana, articulando memória, observação e imaginação. Em Haluares, livro de haicais dedicado à lua, sua escrita se condensa em imagens mínimas e precisas, nas quais o olhar atento ao céu e aos ciclos naturais converte o instante em percepção poética. Os poemas dialogam com as ilustrações da artista visual mato-grossense Ruth Albernaz, ampliando a experiência estética e reforçando, na interação entre palavra e imagem, o caráter contemplativo e sensível da obra. Nesses haicais, a lua deixa de ser apenas tema para tornar-se dispositivo de contemplação, medida do tempo e espelho sensível da experiência humana.
Essa breve menção — inevitavelmente incompleta — serve apenas para indicar a amplitude de uma produção que não pode ser tratada como periférica. Há, nela, elaboração estética consistente, experimentação formal e capacidade de diálogo com questões mais amplas da literatura brasileira. Ignorá-la significa abrir mão de um patrimônio cultural que contribui para compreender o próprio Estado.
O desafio, contudo, não está na existência dessa literatura, mas em sua circulação. Obras que não chegam ao leitor permanecem como potencial não realizado. É necessário que os livros estejam presentes nas bibliotecas, nas escolas, nos espaços públicos de leitura. Sem acesso concreto, a literatura se converte em referência distante, incapaz de cumprir sua função formadora.
No campo das políticas públicas, Mato Grosso dispõe hoje de instrumentos relevantes. A instituição de um plano estadual voltado ao livro, à leitura, à literatura e às bibliotecas, associada a políticas de incentivo e aquisição de obras locais, demonstra que a questão deixou de ser apenas declaratória. Há um reconhecimento de que o acesso ao livro deve ser tratado como política pública estruturada, com planejamento e continuidade.
Sinais recentes indicam avanços nessa direção. A ampliação de investimentos e a incorporação de obras regionais aos acervos escolares apontam para uma mudança qualitativa. Trata-se de um movimento que busca não apenas estimular a produção, mas assegurar que ela encontre a cada dia mais leitores — condição indispensável para a vitalidade de qualquer tradição literária.
Ainda assim, a consolidação dessa política depende de sua presença efetiva nos municípios. É no âmbito local que a leitura se concretiza: na biblioteca que abre suas portas, na escola que incorpora o livro ao cotidiano, nas iniciativas que aproximam autores e leitores. A articulação institucional que acompanha esse processo, quando conduzida com sobriedade, contribui para transformar diretrizes em práticas duradouras.
Os efeitos dessa difusão são amplos. Ao entrar em contato com a literatura do próprio Estado, o leitor não apenas reconhece elementos de sua realidade, mas amplia sua capacidade de interpretação do mundo. A leitura qualifica a linguagem, estimula a imaginação e favorece a construção de uma identidade que não se fecha em si mesma, mas se abre ao diálogo.
Há, por fim, uma dimensão mais sutil, embora decisiva. Em contextos de crescimento acelerado, é comum que o ritmo das transformações obscureça a percepção de continuidade. A literatura atua, então, como memória e como horizonte: preserva experiências, reelabora o passado e projeta possibilidades.
Promover o acesso à literatura mato-grossense, portanto, não é apenas cumprir uma diretriz legal. É investir na formação de uma comunidade capaz de se reconhecer em sua própria linguagem. É aproximar o desenvolvimento material da riqueza cultural que o sustenta.
Porque crescer é inevitável. Mas permanecer inteligível a si mesmo — isso exige leitura.
Márcio Florestan Berestinas é Promotor de Justiça do Ministério Público do Estado de Mato Grosso. Graduado em Direito pela Universidade Estadual de Londrina, possui especializações em Direito Penal e Processual Penal e em Direito Processual Civil pela Fundação Escola Superior do Ministério Público do Rio Grande do Sul. Exerceu a coordenação do Centro de Apoio Operacional da Infância e Juventude no MP-MT. É Coordenador Adjunto do CAO Urbe no MP-MT. É autor de artigos jurídicos e literários publicados em periódicos especializados. Paralelamente à produção jurídica, desenvolve trabalho literário voltado à poesia breve, tendo publicado, em coautoria com seu pai, o livro “Os vaga-lumes estão convidados – Seção de haicais & poemas breves”, com ilustrações de Ruth Albernaz, pela Entrelinhas Editora.


























