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AMEAÇADO DE EXTINÇÃO

Macacos reabilitados em universidade serão transferidos para zoológico

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Três macacos-aranha-de-cara-branca (Ateles marginatus) que estão sob os cuidados do Centro de Vida Selvagem (CeVS), da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) no Câmpus de Sinop, vão embarcar para uma nova etapa de vida. Eles serão transferidos para um zoológico de São Paulo, onde passarão a integrar um grupo monitorado em um programa de pesquisa e manejo de fauna ameaçada.

Formiga, Cupim e Cigarra, como foram batizados pela equipe liderada pela professora e coordenadora do CeVS, Elaine Dione, chegaram ainda filhotes, após perderem as mães em atropelamentos e incêndio. Desde então, foram cuidadosa e intensamente acompanhados, tornando-se o centro de um esforço pioneiro de reabilitação desta espécie na região.

Os três animais são de espécie típica da bacia do rio Teles Pires e considerado ameaçado. A região, marcada por forte expansão agrícola, desmatamento e fragmentação de florestas, tem se tornado cenário recorrente de acidentes envolvendo fauna silvestre.

A maior parte dos filhotes recebidos pelo CeVS chega após atropelamento das mães em estradas urbanas ou rurais. Formiga e Cupim seguiram exatamente esse padrão. Cigarra, por sua vez, foi encontrada sozinha depois de um incêndio em área rural. Em todos os casos, a história começa com um trauma: um filhote órfão, sem bando e sem adulto da espécie para ensinar como viver na floresta. “É muito comum. A gente recebe muitos filhotes assim. Não é um caso isolado, é um padrão de impacto da nossa ocupação do território”.

Foto: Centro de Vida Selvagem (CeVS)

Os três macacos ganharam nomes curiosos e afetivos. Formiga é a fêmea mais velha prestes a completar nove anos. Chegou até o Centro em 2017, com cerca de quatro meses após a morte da mãe em um atropelamento na área central de Sinop. Cupim é um macho e foi resgatado em 2021 após também ser atropelado juntamente com a mãe em uma via pública da cidade. Atualmente, o animal tem quase cinco anos. Já Cigarra tem cerca de quatro anos e foi resgatada em 2023 em uma área rural após um incêndio florestal no município de Terra Nova do Norte.

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De acordo com a professora, com o tempo, eles se tornaram um grupo familiar artificialmente constituído, resultado de anos de tentativa de reabilitação, testes de manejo e observação de comportamento. Elaine explicou que Formiga protagonizou a fase mais ousada do trabalho. A tentativa de criar um protocolo de reintrodução de macacos-aranha em vida livre. Depois de passar por recintos com enriquecimento ambiental e estruturas em altura, ela foi solta na mata com cerca de dois anos. Durante cerca de três anos, viveu solta, com suporte controlado da equipe, recebendo alimento complementar, sob monitoramento, mas sem contato constante com humanos.

O objetivo era permitir que ela atravessasse dois ciclos de sazonalidade, aprendendo quais recursos a floresta oferece em cada época do ano, até adquirir autonomia plena. Ela chegou a seguir bandos de macacos-aranha nativos, conviver e depois voltar, um comportamento considerado muito promissor.

Mas a experiência foi interrompida de forma brusca. Moradores de uma chácara próxima, encantados com a presença da macaca, passaram a alimentá-la, inclusive com alimentos inadequados. O contato intensivo com pessoas fez com que ela voltasse a associar o ser humano à segurança e comida fácil. “A gente estava muito perto de consolidar um protocolo. E uma interferência assim quebra anos de trabalho”.

A partir deste episódio, Formiga precisou ser recolhida. A equipe decidiu que a reintrodução individual, naquele contexto, não era mais viável. Com este fator, a estratégia mudou. Em vez de tentar integrar um único órfão a um bando nativo, a equipe passou a trabalhar na formação de um grupo familiar em cativeiro controlado, para uma futura soltura grupal. Formiga passou a exercer o papel de “amadrinhadora”. Quando Cupim chegou, ainda filhote, foi ela quem ensinou, na prática, como se deslocar pelo alto, usar o corpo, a cauda, reconhecer estruturas em altura. O aprendizado dele foi muito mais rápido que o dela, justamente porque tinha um adulto da espécie como referência.

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Quando Cigarra entrou na história, já havia um núcleo social formado. Ela, mais humanizada, buscava mais o contato com pessoas, mas também foi “puxada” para a convivência com Formiga e Cupim. Aos poucos, os três se tornaram um grupo coeso. Constituir esse grupo levou mais de cinco anos, um tempo longo, especialmente em se tratando de animais que chegaram em situações de emergência.

O processo entrou em uma outra fase, achar um local seguro e acolhedor para os três animais. De acordo com Elaine, a decisão envolveu uma articulação complexa entre a Secretaria Estadual de Meio Ambiente (SEMA), IBAMA, Centro de Primatas Brasileiros (CPB) e a Associação de Zoológicos e Aquários do Brasil (AZAB)

Outras instituições manifestaram interesse, mas queriam receber apenas o macho, o que implicaria dissolver o grupo. A solução veio com o Zoológico de São Paulo, que aceitou receber Formiga, Cupim e Cigarra como um núcleo familiar, mantido sob orientação do “studbook” (um registro de todos os indivíduos em cativeiro para fins de conservação e reprodução) da espécie. Antes da viagem, os três macacos passaram por uma bateria de exames sanitários, em parceria entre o centro de atendimento e as instituições de destino. O transporte será feito por meio de um voo da Latam Solidário, com embarque em Cuiabá e destino a São Paulo. Em solo mato-grossense, a SEMA fará a logística terrestre.

No Zoológico de São Paulo, o grupo vai passar por três etapas principais. Quarentena sanitária – de 40 a 60 dias, em área isolada, para garantir que não levem doenças para a coleção existente. Recinto de aproximação – cerca de 10 a 30 dias em ambiente onde possam ver e ouvir outros indivíduos, iniciando a comunicação à distância. Integração ao grupo – liberação gradativa para convivência com o grupo já estabelecido, com monitoramento de aceitação, hierarquia e possíveis agressões. O processo completo, entre chegada e estabilização social, deve levar de quatro a cinco meses.

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