O título de um artigo publicado na respeitada Universidade de Cambridge soa a coisa de salão: “O convidado bêbado da política democrática” (The Drunken Dinner Guest of Democratic Politics). Foi nestes termos que dois académicos descreveram, há meses, as novas formas de populismo. A imagem que escolheram, tão provocadora quanto eloquente, esconde uma pergunta bastante séria: que acontece quando quem detém o poder não só ignora as regras não escritas da democracia, mas as trata como obstáculos a atropelar? Quando o decoro político, o respeito institucional, as boas maneiras, são ridicularizadas? Quando ser educado equivale a ser “frouxo”?
Os estudiosos deste tema chamam a atenção para o sucesso de um estilo de política que transforma a agressividade numa virtude, a transgressão em autenticidade e a quebra de normas básicas em sinal de força. O artigo faz esta comparação simples: é como se um convidado, em vez de cumprir as regras implícitas do jantar, derrubasse o sal, insultasse os presentes e reclamasse o direito de o fazer – porque, afinal, “não está escrito em lado nenhum” que não se pode. Ou melhor: fá-lo não por desconhecer as regras, mas precisamente porque as conhece e escolhe violá-las em público. Porque foram estas regras, dirá ele, que nos trouxeram ao ponto a que chegámos.
Nos estudos da comunicação política, esta forma de ação é chamada de “performance de impunidade simbólica”. Significa: “Posso, porque quero a mudança. E tu, que te escandalizas, fazes parte do sistema e dos interesses instalados.”
Há dias, Donald Trump partilhou um vídeo com os rostos de Barack e Michelle Obama em corpos de primatas. Confrontado, apagou o vídeo, mas recusou pedir desculpa. Se o episódio choca pelo conteúdo racista, é igualmente revelador pela postura: a de quem não sente a mínima inibição pelos limites do que se chama “sentido de Estado”. Trump é o caso mais óbvio, mas está muito longe de ser o único. Um pouco por todo o Ocidente, tem inspirado, com inegável êxito, políticos que exibem uma linguagem de confronto com as instituições, apetite pelo escândalo, e a recusa em aceitar que a política tem uma gramática que inclui o respeito e a autocontenção.
Muito se tem escrito sobre isto. Um livro de Vicente Valentim, O Fim da Vergonha (Gradiva, 2024), ajuda a compreender o fenómeno: quando figuras públicas dizem o que antes era impensável, estão a criar um novo normal. Este novo normal traz consigo uma “fase de revelação” – uma fase em que o apoio a ideias extremas deixa de ser escondido e passa a ser expresso sem vergonha. A seguir, muda o discurso político, e com ele, mudam os limites do aceitável.
Por que importa isto? Porque a democracia não vive só de leis. Vive de confiança, de reconhecimento mútuo, de um mínimo de respeito comum. Quando um líder trata o opositor como inimigo, quando ridiculariza instituições, quando normaliza o insulto, não está apenas a ser “irreverente” ou a “arrasar” os adversários. Está a corroer os alicerces invisíveis que permitem a uma sociedade discordar sem se autodestruir.
Gil Ferreira é professor e pesquisador do Instituto Politécnico de Coimbra, Portugal.

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