
O que é afeto? Na filosofia, é a potência de sermos transformados por um encontro. Mais do que uma emoção – que é a interpretação ou força subjetiva de um sentimento, como alegria ou tristeza –, o afeto é um movimento que atravessa e muda a forma como agimos e pensamos. A história da enfermeira Carla mostra como essa definição ganha sentido na prática.
No Parque Indígena do Xingu, no Mato Grosso, a enfermeira Carla, formada em São Paulo, aprendeu o peso dessa palavra. Treinada para manter “a máquina da vida” funcionando, deparou-se com um bebê Kalapalo comum quadro de enfermidade grave, que ela identificou como meningite. A comunidade já havia iniciado o luto: para eles, o espírito da criança havia partido. Os pajés, serenos, diziam que nada mais poderia ser feito. Carla, no entanto, insistiu. Convenceu a família a levar o bebê ao posto de saúde, e a enfrentar horas de viagem de barco. A criança morreu no trajeto.
Para a enfermeira, a morte “aconteceu no lugar errado e do jeito errado”: longe da casa, dos rituais e dos afetos da aldeia. O episódio a marcou profundamente. Anos depois, diante de outra criança indígena em estado grave, respeitou a decisão dos pais de permanecer na comunidade. “Pelo menos que morra na terra dela, com o povo dela, do que num corredor de hospital”, disse. Afeto, nesse caso, não foi apenas compaixão. Foi a transformação de uma profissional, moldada pela biomedicina, que aprendeu a ouvir outras concepções de vida e morte. No Xingu, descobriu que cuidar nem sempre é prolongar a vida – às vezes, é garantir uma despedida digna.
“Afeto é mais do que um gesto de empatia: é a capacidade de se deixar atravessar pelo outro e, a partir disso, transformar práticas e valores”
A história de Carla mostra que o afeto é mais do que um gesto de empatia: é a capacidade de se deixar atravessar pelo outro e, a partir disso, transformar práticas e valores. No campo da saúde, essa abertura permite reconhecer que há múltiplas formas de entender o que é viver e morrer, e o que é o cuidado. Transformar a medicina por meio de experiências que afetem o campo da saúde, que abram fissuras no seu monopólio, permitindo que ela conviva com outras formas de saber e de cura. Isso implica reabrir o campo para saberes excluídos – como práticas tradicionais, xamânicas e populares – tratados como parceiros, e desacelerar a ciência médica para escutar contextos, singularidades e modos de cuidado que escapam aos critérios padronizados de eficácia.
Envolve também valorizar o caráter situado e relacional do cuidado, apoiar associações e agrupamentos que transformem a experiência do paciente em conhecimento coletivo, resistir à mercantilização da saúde e criar zonas de contato não capturadas pela lógica mercadológica. Trata-se, por fim, de reinventar a medicina e o campo da saúde como prática ética e política, deslocando o foco do controle e da gestão para a composição de mundos plurais, nos quais saúde e cura sejam efeitos de relações e não apenas de procedimentos técnicos.
* Pedro Paulo Gomes Pereira é Professor Titular de Antropologia da Universidade Federal de São Paulo
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