(Foto: Reprodução CAURJ)

Esta terça-feira, 14 de março, marca cinco anos da morte da vereadora pelo Rio de Janeiro, ativista pelos direitos humanos, Marielle Franco (Psol), e seu motorista, Anderson Pedro Gomes. Eles foram mortos em um atentado brutal que aconteceu em pleno centro da cidade. Os criminosos dispararam 13 tiros contra o carro deles. Os executores do crime foram presos, mas ainda não foram levados a julgamento. E até hoje os mandantes e a motivação do crime continuam como pontas soltas por causa da complacência, da omissão e da lerdeza de diversas autoridades responsáveis pelo caso.
A vereadora Marielle foi morta pelo crime organizado incrustado no Rio de Janeiro. Foi assassinada porque era uma ameaça aos negócios da Milícia carioca, organização que reúne bandidos que tem um pé nas instituições do Estado, como a Polícia, e o outro pé no crime. A Milícia que usa a ideia torta de ser uma organização na defesa dos moradores das comunidades tomadas pelo tráfico. Mentira! A Milícia sempre foi, na verdade, uma organização criminosa igual ao tráfico, apenas com negócios diferentes. E em algumas regiões são sócios. A atuação criminosa da Milícia, com o envolvimento de políticos e outras autoridades, foi uma realidade completamente ignorada pela oposição na eleição de 2018. Talvez por acreditar que fosse um tema local demais, um erro de qualquer forma. Jair Bolsonaro e seu clã familiar sempre foram defensores da ação da Milícia e de vários policiais com histórico criminal de milicianos.
A morte de Marielle tem o traço comum aos assassinatos de outros ativistas brasileiros quando as causas que defendem batem de frente com os interesses financeiros do crime organizado. Foi assim com a missionária Dorothy Mae Stang, assassinada com sete tiros por defender os sem-terra contra a ganância de latifundiários. Foi assim com Chico Mendes na sua luta em defesa dos trabalhadores rurais que fez emergir o ódio dos latifundiários que lucram imensamente com a destruição da Amazônia. E foi assim, mais recentemente, com o indigenista brasileiro Bruno Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips assassinados por criminosos que controlam a pesca predatória e o garimpo ilegal no extremo oeste do Amazonas. Todos foram eliminados porque representavam uma ameaça aos negócios e ao poder do crime organizado.
A morte de Marielle tem o traço comum aos assassinatos de outros ativistas brasileiros quando as causas que defendem batem de frente com os interesses financeiros do crime organizado.
O assassinato de Marielle tem uma dimensão política: ela representava o embate democrático contra a extrema-direita no Brasil que mostrou a sua face cruel e radical a partir da eleição de Jair Bolsonaro. Mulher, negra, mãe, lésbica, socióloga, ativista pelos direitos das mulheres, negros, favelados e pessoas LGBTQIA+, a vereadora de matiz ideológico de esquerda incomodava porque fazia um enfrentamento inteligente, por isso forte: questionava, fazia falar e pensar.
Marielle se tornou um ícone da intolerância à diferença e uma vítima da violência que nos assombra. De outro lado, Marielle é tratada como um ícone do ódio cultivado pela extrema-direita. Para estes radicais, a imagem simbólica de Marielle é a dos inimigos a serem eliminados.
Fazer viver Marielle é lembrar de sua competência política diferenciada: a sua imensa capacidade de dialogar com o outro, fora das bolhas e de grupos. De buscar na ação o ideal de uma democracia comunicada que almeja modificar crenças fundadas em velhos preconceitos; superar ódios e ressentimentos; estimular o pensamento inteligente para criar novas formas de ver e conviver no mundo, além de enfrentar aqueles que são movidos apenas pela truculência e ganância. Um humanismo militante que propõe uma visada mais larga para entender o contexto e acolher o outro, independente de todas as bolhas e grupos.
A capacidade política da vereadora Marielle, sensível e determinada na articulação de uma comunicação sem interdições, calcada na força de um diálogo alargado para além de bolhas, foi reconhecida, quem diria, por um coronel da PM do Rio de Janeiro, Robson Rodrigues da Silva. Ainda em 2018, o militar fez uma homenagem a Marielle Franco, usando a sua página do Facebook.
É essa capacidade política de diálogo com os contrários que precisa ser lembrada também. É a democracia comunicada que faz viver Marielle:
Os sinos dobram por ti
Por Robson Rodrigues
Cada morte violenta me arranca um pedaço da alma, pois os mais de 60 mil homicídios ao ano nos distancia, e muito, do lugar civilizatório que, julgo, mereceríamos ocupar como país tão lindo como o nosso. Calo, sofro, choro em silêncio. Não me apraz falar, não me apraz comparecer a rituais de despedida fúnebre e sentir o sofrimento das pessoas, principalmente dos familiares, em respeito a suas dores.
O cargo me obrigou a assistir inúmeros enterros, de inúmeras vítimas policiais de uma guerra fratricida que nos prostra enquanto seres humanos. Uma guerra inglória. Abri uma exceção por um dever de consciência; para falar de uma amiga, a vereadora Marielle, porque, se sua morte me impactou, muito mais tem impactado a forma vil e cega e infame como ela vem sendo tratada por algumas pessoas nas redes sociais. Pessoas que não conheceram Marielle.
Senti-me na obrigação de informar a amigos desinformados sobre quem ela era; amigos que considero e que são bombardeados por bobagens e falsas informações sobre a vereadora que não conheceram. Segue abaixo uma dessas mensagens que enviei a um amigo a quem considero bastante e que talvez possa servir a outros amigos.
Deveríamos, sim, nos unir enquanto sociedade contra o maior problema civilizatório que nos afeta e dilacera: a violência homicida. Apesar disso, há pessoas que insistem em simplificar questão tão complexa, dividindo o mundo em direita e esquerda.
Choro pelas mortes infames, do cidadão comum, dos meus amigos, dos meus amigos policiais dos quais já perdi a conta inúmeras vezes. Meu primeiro serviço como aspirante foi atender a ocorrência do assassinato de um policial militar, adorado em meu Batalhão. Chorar com sua família me fez pensar o quão difícil seria aquela trajetória profissional que eu havia abraçado.
Meu sentimento é expressado nos versos do poeta John Donne: “a morte de qualquer homem (ou mulher) me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.
Choro agora por uma amiga admirável, sobretudo porque lutava contra essa estupidez e sonhava com uma sociedade melhor. A vereadora Marielle era corajosa; lutava a favor das minorias, mas principalmente contra a estupidez das mortes desnecessárias que têm endereço e destinatários certos. Mortes muitas vezes festejadas por pessoas que querem que nós, policiais, façamos para elas o serviço sujo de um extermínio fascista. Não se esqueçam que também acabamos vítimas dessa estupidez.
Conheci Marielle quando ela me trouxe, de forma educada, mas contundente, o caso de algumas mães amedrontadas com a ação de policiais que barbarizavam moradores de uma certa favela com UPP. Os fatos eram indefensáveis. Aqueles comportamentos não era o que se podia esperar de uma instituição que existe para combater o crime, mas, sobretudo, para servir a população. Tomei minhas providências. Se Marielle veio até a mim buscando solução, era porque confiava na polícia, pelo menos em parte dela, uma parte da qual eu te incluo. Marielle, assim como nós, não confiava na polícia violadora de direitos, na polícia bandida, mas confiava na instituição policial, naqueles que não querem que ela seja instrumentalizada para fins vis e elitistas, sendo direcionada para os mesmos estratos de onde a maior parte de nossos próprios policiais vem.
Depois disso ela me procuraria para saber como ajudar policiais que sofriam abusos, assédios moral e sexual e outros tipos de violações de direitos. Eu te pergunto: alguém que “só quer defender bandido” teria esse comportamento?
A vereadora Marielle era corajosa; lutava a favor das minorias, mas principalmente contra a estupidez das mortes desnecessárias que têm endereço e destinatários certos.
Na ocasião, me lembro de ter comentado com ela do sofrimento dos policiais subalternos, da mulher policial, da mulher negra policial etc. Um fato em especial me tocava naquele momento: o de viúvas de PM. Eu disse a ela que uma das formas de ajudar poderia ser agilizando os processos de obtenção de suas pensão. Há trâmites administrativos que emperram a pensão da viúva e que extrapolam as possibilidades da corporação; há também a lentidão da investigação da morte dos policiais militares por parte da PCERJ, que é formalidade do processo. Ela se interessou e, depois, junto com o deputado Marcelo Freixo, criaram um núcleo de atendimento a policiais. Mesmo depois de ter deixado a PM, encaminhei alguns casos a eles.
Nossos praças e oficiais mais subalternos, principalmente as policiais negras, são discriminadas diariamente em nossa instituição, sofrem assédios, sobretudo por parte de pessoas como nós, oficiais e brancos.
Recentemente a PM impôs limite de vagas para mulheres no concurso do CFO, mas contra isso ninguém de dentro se colocou. Marielle se interessava por essas causas, que, infelizmente, ainda não tocam nossa sensibilidade institucional. Com suas bandeiras ela defendia muito mais nossos policiais do que nós fomos capazes de compreendê-lo e de fazê-lo.
Portanto, postagens maldosas que circulam nas redes sociais, além de não retratarem a realidade, são de um imenso desrespeito não só à história de Marielle, mas aos nossos policiais honestos e trabalhadores sofridos, sobretudo as policiais negras, que tanto necessitam ser acolhidos nas causas que ela magnificamente defendia. Que tenhamos Marielle presente para transformar nossa polícia em uma instituição melhor para a sociedade e para policiais vocacionados.






















