
A terceira expedição fluvial pelo Rio Cuiabá, realizada entre os dias 9 e 13 de março, identificou um conjunto de pressões ambientais e sociais que, segundo especialistas e autoridades, já afetam a dinâmica do rio e podem comprometer o funcionamento do Pantanal nas próximas décadas.
Os resultados preliminares foram apresentados nesta terça-feira (17.03), em coletiva na Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT). O diagnóstico reúne observações feitas ao longo de cerca de 900 km, do Rio Manso até o Pantanal, com participação de pesquisadores, órgãos ambientais e representantes de comunidades.
Entre os principais problemas apontados estão a poluição da água, o descarte irregular de lixo, o lançamento de esgoto sem tratamento, a falta de saneamento básico e os impactos de atividades como dragagem e geração de energia.
O deputado estadual Wilson Santos (PSD), que liderou a expedição, destacou que a dependência da região por águas superficiais aumenta a vulnerabilidade ambiental. “Na Baixada Cuiabana praticamente não temos água subterrânea. Precisamos cuidar das águas superficiais”, disse. Ele citou estudos que indicam risco de desaparecimento do Pantanal até o fim do século.
De acordo com o parlamentar, o cenário atualmente na ALMT é de propostas que buscam flexibilizar regras ambientais. “Hoje somos minoria na pauta da preservação”, afirmou. Um dos pontos de maior tensão histórica apontada pelo deputado é a instalação de usinas hidrelétricas na bacia do Rio Cuiabá.

Pesquisadores ouvidos na coletiva destacaram que alterações já em curso no rio podem ter efeitos de longo prazo. O engenheiro e professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Rafael Petrollo de Paes, explicou que a barragem da Usina de Manso alterou o fluxo natural de sedimentos.
Segundo ele, a retenção de areia na parte alta da bacia reduz o material que chega ao Pantanal, o que pode mudar a dinâmica de cheias. “Essas inundações tendem a diminuir em frequência e intensidade”, afirmou. O fenômeno pode afetar ciclos ecológicos essenciais à fauna e flora da região.
O geólogo Caiubi Emanuel Souza Kuhn, também da UFMT, disse que já há sinais de erosão em trechos do rio devido à falta de reposição de sedimentos. “Hoje você só tem o grão de areia indo embora”, afirmou. Ele explicou que, sem reposição, o rio tende a se aprofundar ou alargar, o que altera o regime de inundação, considerado essencial para o Pantanal.
Além dos impactos ambientais, o diagnóstico aponta problemas sociais nas comunidades ribeirinhas. A promotora de Justiça Ana Luíza Ávila Peterlini afirmou que há falta de acesso à água potável em áreas do Pantanal. “Na maior planície alagada do planeta, há comunidades sem água para beber”, disse. Ela também citou dificuldades de infraestrutura, como ausência de escolas, transporte e regularização fundiária. Segundo a promotora, o Ministério Público tem financiado estudos e projetos para subsidiar políticas públicas na região.
Dados apresentados durante a coletiva indicam ainda redução de até 70% da superfície de água no Pantanal nos últimos 30 anos, com base em levantamentos do MapBiomas. A queda é atribuída a fatores como mudanças climáticas e intervenções humanas na bacia.
O diagnóstico da expedição deve integrar o Plano da Bacia Hidrográfica do Rio Cuiabá, em elaboração desde 2022 pela UFMT. O documento prevê cenários e ações de curto, médio e longo prazo, incluindo medidas para recuperação de áreas degradadas, controle do uso da água e ampliação do saneamento.
Próximos passos

Como encaminhamento, a Assembleia deve consolidar um relatório técnico e promover audiências públicas para discutir medidas ao longo dos próximos meses. Também está prevista a articulação com órgãos ambientais e o Ministério Público para implementar ações de preservação e saneamento.
A expedição também registrou impactos sobre a atividade pesqueira e dificuldades econômicas enfrentadas por pescadores, incluindo atrasos no pagamento do seguro-defeso. Segundo os organizadores, as informações levantadas devem subsidiar políticas públicas voltadas à conservação do rio e ao apoio às populações que dependem dele.
























