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ARTIGO

Uma análise habermasiana do caso Benfica-Vinícius Jr.

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Há alturas em que o que não se diz é tão importante como o que se diz. E depois há alturas em que o que se diz é tão desastroso que mais valia ter ficado em silêncio. O Sport Lisboa e Benfica, infelizmente, conseguiu o pior dos dois mundos.

Quando Vinícius Jr. acusou Prestianni de o ter chamado “macaco” na Liga dos Campeões, instalou-se o caos habitual. Mas o que realmente merece análise é o que veio depois. Não o racismo em si – sobre esse, estamos todos contra, pelo menos em teoria. O que interessa perceber é como se gere comunicacionalmente uma crise destas. E aqui, o Benfica falhou.

Imaginemos uma alternativa. O Benfica poderia ter dito: “Somos todos contra o racismo, esse é o nosso chão comum. Houve um mal-entendido que lamentamos. O nosso jogador vai explicar o que disse e estamos disponíveis para o esclarecimento, porque importa que o que aconteceu seja compreendido por todos. E fica o compromisso: se o nosso jogador tivesse dito aquilo de que é acusado, nunca mais vestiria esta camisola.” Como é sabido, o Benfica não fez nada disto. 

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A abordagem do parágrafo anterior bebe da ética do discurso de Jürgen Habermas. Mas o que é ser habermasiano? Habermas é um filósofo alemão que dedicou a vida a uma questão: como é possível a convivência humana se temos visões do mundo tão diferentes? A resposta está na “ética do discurso”: a comunicação é a ferramenta fundamental para nos entendermos. Mas é preciso respeitar certas condições.

A primeira é que a comunicação não deve servir para vencer o outro nem para impor a nossa verdade. O seu horizonte é o entendimento mútuo. Quando o Benfica opta pela defesa incondicional e pelo contra-ataque, abandona esse horizonte e escolhe o conflito. 

Depois, a ética discursiva exige que reconheçamos o outro como sujeito válido no diálogo. Ao afirmar “esperamos que o Vinícius entenda”, o Benfica estaria a dizer: “a tua perceção importa, mesmo que não concordemos com ela”. Já quando se diz “isto acontece sempre com o mesmo”, não se argumenta: desqualifica-se o interlocutor.

Por fim, um acordo só é legítimo se os princípios que o sustentam forem válidos para todos, não apenas para a nossa tribo. Quando a alternativa acima sugerida coloca na boca do Benfica a frase que não se ouviu – “somos todos radicalmente contra o racismo” – o que faz é afirmar aquilo que nos une. O tal chão comum que torna possível o entendimento.

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É isto ser habermasiano: diálogo em vez de monólogo, reconhecimento em vez de desqualificação, valores universais em vez de interesses particulares. Não é ser bonzinho ou politicamente correto. Numa sociedade fraturada, a única forma de convivência duradoura é a que assenta no esforço contínuo de entendimento. Habermas dedicou décadas a explicar isto. O Benfica teve dias para o aplicar. Não o fez. 

Este artigo poderia ter sido escrito, em espelho, sobre a comunicação da equipa adversária – ou sobre qualquer outra. Num futebol sob pressão mediática permanente, o contra-ataque é estrutural e a lógica da guerra simbólica sobrepõe-se facilmente ao diálogo. No mundo real, ser habermasiano é tudo menos fácil.

Gil Ferreira é professor e pesquisador do Instituto Politécnico de Coimbra, Portugal.

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

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