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FATO E CONSEQUÊNCIA

A política não sobrevive sem a religião

O cenário eleitoral de 2026 aponta para uma estratégia comunicativa da extrema-direita enfatizando cada vez mais a instrumentalização da religião, numa fusão de valores conservadores da crença e da ideologia extremista de repulsa ao Outro. A esquerda democrática parece ter perdido a ligação com os segmentos religiosos e ainda resiste em compreender, por exemplo, que os evangélicos não são um outro Brasil. 

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A extrema-direita bolsonarista segue à risca os preceitos da instrumentalização da religião para uso político-eleitoral: alimenta massivamente o medo do “comunismo brasileiro”, seja lá o que venha a ser isso, da insegurança social e de qualquer forma de mudança. Incita o ódio ao outro, a discriminação. Faz a adaptação da frase da matança policial autorizada, “bandido bom é bandido morto”, para “herege bom é herege morto”, estimulando a crença radical. A estratégia está fundamentada numa narrativa que aparta o fato das consequências. Exemplo: 

– A esquerda quer fechar as igrejas evangélicas! Qual fato sustenta essa consequência da esquerda no poder? Não há nenhum fato que possa sustentar tal consequência. Essa lógica torta de apartar fato e consequência é poderosa, porque sustenta ideias simplistas e de fácil comunicação. 

A questão da religião é algo hoje, ainda, mal resolvido na esquerda e reflete diretamente na má condução do próprio governo Lula. Pesquisa mostra que o PT e Lula perderam terreno entre seu eleitorado tradicional não só do ponto de vista econômico, como também cultural, conforme destaca, o jornalista Alexander Busch, na sua coluna no site DW Brasil.

Os dados mais recentes do IBGE, divulgados em junho de 2025 com base no censo de 2022, comprovam uma persistente mudança estrutural religiosa: a percentagem de católicos entre a população brasileira caiu de 65%, em 2010, para 56,7%, enquanto a dos evangélicos subiu 5,2 pontos percentuais, para 26,9%. A parcela real pode ser até mais alta, já que diversos grupos (por exemplo, Testemunhas de Jeová) não entram nessa rubrica.

Cerca de dois terços dos evangélicos se identificaram como “pretos” ou “pardos”, e uma taxa acima da média vive nas periferias urbanas, onde as igrejas evangélicas cada vez mais tomam o lugar das redes estatais ou familiares, ao promover a sensação de pertencimento, sentido e orientação.

A consequência é dramática para o PT: muitos de seus antigos eleitores fiéis nas favelas passaram a integrar comunidades evangélicas; em vez de consciência de classe, o que hoje marca seu comportamento eleitoral são visões de mundo moralistas e valores conservadores.

Conclusão: os sucessos da política anterior de Lula – redução da pobreza, mobilidade e emancipação social – o privam hoje de sua velha base eleitoral. Seus antigos apoiadores são hoje economicamente mais confiantes e politicamente mais conservadores. Esses eleitores não vão mais atribuir ao governo o aumento de seus salários ou a maior oferta de empregos, mas sim à própria dedicação ou ao Senhor Deus.

O foco da fé pentecostal reside na experiência pessoal e direta com Deus, especialmente através do batismo no Espírito Santo e na manifestação dos dons espirituais. Essa experiência é vista como uma evidência da presença e do poder de Deus na vida do crente, sendo central para a prática religiosa pentecostal

Está difícil vislumbrar como Lula e o PT vão conseguir escapar desse dilema.

O ex-ministro José Dirceu, em artigo publicado em dezembro de 2024 no site Congresso em Foco, intitulado Um Brasil evangélico ou vários brasis, esboçou um caminho político para o PT reencontrar o diálogo perdido do partido com os cristãos.

Tornou-se um mantra da direita e uma espécie de autoflagelo da esquerda dizer que o campo progressista se comunica pouco, e mal, com o segmento evangélico. Essa crítica costuma ganhar ainda mais amplitude em períodos eleitorais, como o encerrado em outubro deste ano, ou quando pesquisas de opinião registram afastamento do campo evangélico em relação ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Seja como for, muitas das análises são contaminadas por uma mistura perigosa de desinformação, preconceito e má-fé ante o crescimento vertiginoso do número de fiéis evangélicos, da multiplicação dos templos evangélicos e do crescente poder de representação evangélica no Congresso. 

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Contra essa contaminação e em favor de uma nova forma de olhar o “Brasil evangélico”, tenho dito sempre que posso em conversas privadas e falas públicas: precisamos urgentemente parar de nos dirigirmos aos “evangélicos” como se fossem um país à parte, de olhares, natureza e motivações que se restringem à religião que praticam. 

Parece um contrassenso fazer esse chamado diante dos números. Na década de 1970, evangélicos representavam apenas 5% dos brasileiros, eram 22% em 2010, segundo o Censo do IBGE, e hoje especialistas sugerem que abrangem um terço da população adulta. Havia cerca de 17 mil templos evangélicos em 1990, número que, em 2019, saltou para quase 110 mil, aumento de 543%, de acordo com pesquisadores da USP – boa parte desses estabelecimentos está longe da imagem dos mega templos com pastores super ricos, são espaços pequenos próximos às casas dos fiéis e com participação ativa na vida comunitária. 

Em suma, a malha evangélica é a força propulsora da religiosidade nacional, enquanto a outra parcela cristã, que por séculos reinou soberana sobre a fé brasileira, encolhe ano a ano. Caso mantenham o ritmo, a partir de 2032 evangélicos ultrapassarão católicos, abrindo caminho para que, em poucas décadas, possam sobrepujar a identidade católica que predominou no país. 

Mesmo diante dessas evidências, insisto: precisamos parar de nos dirigirmos aos “evangélicos” apontando o dedo para eles e para sua religião como causa explicativa para fenômenos políticos e partidários. Primeiro porque historicamente somos uma nação cristã – e não deixamos, nem provavelmente deixaremos de sê-lo. Segundo porque ninguém aponta para eleitores e cidadãos católicos como o fazem para evangélicos. Terceiro, porque essa vocação nacional para ligar a religião à identidade política acaba atrelando sua visão, sobretudo entre pentecostais e neopentecostais, a valores conservadores – algo que é de real interesse exclusivo da extrema-direita, que de forma oportunista instrumentalizou a fé, como se fosse a legítima representante dos interesses cristãos, e de maneira malévola soube converter a esquerda na encarnação do mal. Quarto, porque ao fazermos essa vinculação como algo homogêneo ou uníssono, desprezamos a variedade de interesses, laços, realidades e expectativas que esse segmento do eleitorado representa. 

O Estado é laico, mas é inquestionável inclusive o direito de cristãos evangélicos de fazer política, ter sua própria bancada e exercer sua luta pelos meios institucionais e partidários – assim como fizeram e fazem muitos cristãos católicos. (O que não se pode admitir é que combatam outras religiões, especialmente aquelas de matriz africana como a umbanda e o candomblé, mas esta é uma outra história.) Se desprovidos de preconceito, constataremos que entrar para a igreja evangélica significa, para muitos brasileiros mais pobres, melhorar suas condições de vida, ascendendo socialmente, fortalecendo a autoestima, vencendo o alcoolismo e a violência doméstica, adquirindo disciplina para o trabalho e vendo crescer o investimento familiar em educação e cuidados com a saúde. 

Portanto, tem menos a ver com pastores oportunistas e carismáticos e muito mais com a influência das igrejas sobre a vida comunitária e sobre a melhoria das condições de vida dos mais pobres – é uma aposta na espiritualidade e nos valores, mas também uma forma de experiência com quem vive em seu entorno, nas periferias, nas favelas e demais espaços das classes populares. Se providos de informação, reconheceremos que está na base da pirâmide mais evangélica uma população de maioria periférica, negra, feminina e mais praticante da religião, num Brasil até bem pouco tempo de maioria católica não-praticante. E que, portanto, se move a partir de questões reais de suas vidas, por necessidades práticas do seu cotidiano e não apenas por fake news espalhados pela extrema-direita oportunista, violenta e intolerante. 

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Enxergando assim, vemos que o “povo de Deus” tem muitas similaridades com o “povo de Lula”, que esteve com o presidente e o PT em sucessivas eleições, como 2002, 2006, 2010 e 2014. Havia uma aspiração e uma consequência em comum: um governo que se preocupava E, por fim, se abdicamos da má-fé, lembraremos que, embora estejamos falando de segmentos com posicionamentos cada vez mais conservadores, também falaremos do quanto lideranças religiosas de amplitude nacional adotaram o bolsonarismo como referência política e ideológica. 

Como pastores de intenção questionável como Silas Malafaia têm espaço, força e voz para difundir suas ideias, não-evangélicos acabam tomando a parte pelo todo. Se é verdade que o bolsonarismo se amalgamou com o campo evangélico nos territórios, também é verdade que, diferentemente do que muitos pensam, “valores” estão muito atrás na lista de preocupações do segmento evangélico – ficam distante, por exemplo, de problemas como “criminalidade e tráfico de drogas”, “corrupção” e questões materiais como crescimento econômico, emprego e renda. 

Não basta deixar de tratar evangélicos como um Brasil à parte ou de ver evangélicos como fanático, conservador ou intolerante – eles existem, sim, mas estão longe de ser maioria. Se no passado fizemos política com os católicos, os bispos, as comunidades eclesiais de base e as pastorais católicas, não podemos olhar com desconfiança quando partidos e lideranças recorrem a lideranças e igrejas evangélicas como forma de atuação política. 

O credo da esquerda é sincrético, e isso implica tanto desfazer preconceitos quanto escolher adequadamente mensagens e mensageiros como forma de se conectar com os diferentes segmentos, independentemente de suas religiões. A essência do projeto progressista é combater as desigualdades, reduzir a pobreza e melhorar as condições materiais da população, assim como entender suas expectativas e valores. É, em síntese, estar ao lado do povo – como historicamente desejou a esquerda, o PT e o presidente Lula. E as igrejas evangélicas estão. Sair dos valores, terreno onde a visão pantanosa do bolsonarismo prefere caminhar, e migrar para as condições reais – eis a missão do campo progressista para os próximos anos. Não podemos lutar contra a fé das pessoas, temas como aborto, casamento do mesmo sexo, entre outras, estarão invariavelmente contaminados pela dimensão da fé e da religião. Um exemplo? Uma das principais reivindicações das mulheres evangélicas é poder deixar o seu filho na escola durante todo o dia. Essa reivindicação é acolhida pela educação em tempo integral, uma das bandeiras do governo Lula. Há muitos outros exemplos, que passam pelas condições de emprego e renda, pelo estímulo ao empreendedorismo (não o empreendedorismo precarizado simbolizado pelos aplicativos de delivery), pelo enfrentamento da criminalidade, por políticas que desconcentrem a renda e a riqueza, e assim por diante. Não é tarefa trivial, mas precisa ser iniciada imediatamente.

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