Enquanto Trump tenta se desvencilhar da enroscada provocada por sua antiga amizade com (Jeffrey) Epstein (o financista morto em 2019 em uma prisão novaiorquina, acusado de comandar uma rede de abuso sexual contra menores de idade); e uma ministra israelense posta um vídeo sobre “Gaza do Futuro”, com o território cheio de arranha-céus à beira-mar e turistas (como se os quase 60 mil palestinos mortos e cerca de 142 mil feridos, desde 7 de outubro de 2023, em nada importasse); aqui no Brasil o cinismo e a hipocrisia dão a tônica. Especialmente quando se trata de reduzir ou se aproveitar dos benefícios destinados aos menos privilegiados financeiramente. Por que apenas cortar os custos sociais, se também é possível desviá-los em causa própria?
Como um caso ocorrido em Santa Catarina. Desde 2023, eles têm um programa chamado “Universidade Gratuita”, de concessão de bolsas em instituições privadas, cujo objetivo é auxiliar estudantes em vulnerabilidade econômica ou que não podem arcar com os custos da educação superior. Bela iniciativa, não fosse um problema. Entre os mais de 41 mil benefícios concedidos em 2024, mais da metade apresentou irregularidades. Seja por omissão de informações de bens do grupo familiar (15.281), por apresentar indícios de declaração de renda abaixo da real (4.430) ou por deixar de informar vínculo empregatício.
Sem contar que a condição de vulnerabilidade econômica exigida passou longe de 1.260 dos alunos agraciados com bolsa integral. Motivo: segundo investigação do Tribunal de Contas do Estado, eles teriam um patrimônio superior a R$ 1 milhão. Outros 19 são de famílias com fortunas superiores a R$ 200 milhões. Teve um que conseguiu a bolsa, mesmo sua família tendo os bens avaliados em R$ 855 milhões. Neste ínterim, estima-se que R$ 324 milhões tiveram sua rota desviada em sentido contrário. Resumindo: tirado dos pobres, dos necessitados deste tipo de ajuda, para ser distribuído entre os ricos, entre os que não precisam.
Parece que a situação de Santa Catarina não é isolada. Na última semana, foram noticiados dois casos ocorridos no interior de Goiás. Duas alunas do curso de medicina de uma universidade privada forjaram ser pobres para manter bolsa integral. A manobra foi descoberta.
Assim fica fácil (para quem já tem algum dinheiro acumulado e conhece o caminho das pedras, óbvio) ficar rico neste país. Nos últimos cinco anos, mais que dobrou o número de milionários brasileiros. Excluídos os bilionários (num total de 56 e fortuna somada de US$ 215 bilhões, segundo a Forbes), o Brasil possui atualmente 433 mil milionários, segundo instituições bancárias, contra 207 mil em 2020. O período de maior crescimento foi durante a pandemia do coronavírus. Praticamente dobrou entre 2020 e 2022, enquanto o país registrava mais de 700 mil mortes e quase 40 milhões de infectados pela doença.
Publicado em A Gazeta, de Cuiabá, nesta segunda-feira, 28.07.2025























