Às vésperas de sua 31ª edição, o Grito dos Excluídos se prepara para mais falar sobre uma história oficial muitas vezes silencia. Longe de ser apenas um evento isolado no Dia da Pátria, o movimento se consolida como um processo contínuo de mobilização e conscientização. Para entender a essência e a relevância dessa manifestação em Mato Grosso, o PNB Online conversou com Juvenal Paiva da Silva, articulador da regional Oeste 2 da CNBB no estado.
“O Grito, mais do que uma articulação, é um processo, é uma manifestação popular carregada de simbolismo”, define Juvenal. Ele explica que o movimento integra pessoas, grupos, entidades, igrejas e movimentos sociais comprometidos com as causas dos excluídos. “Ele brota do chão, é ecumênico e vivido na prática das lutas populares por direitos”, complementa.
A origem da mobilização remonta a 1994, durante a 2ª Semana Social Brasileira da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Inspirado pela Campanha da Fraternidade de 1995, que tinha como lema “A fraternidade e os excluídos”, o Grito foi concebido para fazer um contraponto ao Grito da Independência. A primeira edição ocorreu em 7 de setembro de 1995, com o tema “A vida em primeiro lugar”, e ecoou por 170 localidades do país.
Ao longo de 31 anos de história, as conquistas do Grito não se medem em marcos únicos, mas na construção de uma consciência coletiva. Segundo Juvenal, o objetivo central é “superar um patriotismo passivo em vista de uma cidadania ativa e de participação”. A ideia é transformar o 7 de setembro, para além das celebrações oficiais, em um dia de reflexão, reivindicação e luta por uma sociedade mais justa e solidária.
As ações são diversas e se adaptam às necessidades de cada ano, muitas vezes alinhadas aos temas da Campanha da Fraternidade. “Se o tema é meio ambiente, vamos trabalhar o plantio de árvores, o cuidado de nascentes. Se é a fome, vamos fortalecer a agricultura familiar”, exemplifica o articulador. “Nós cuidamos da criança, do idoso, do povo em situação de rua. Na verdade, nós ajudamos para que essas pessoas sejam protagonistas. Estamos do lado do MST, dos assentamentos, das ocupações”.
Para Juvenal, o movimento assume a responsabilidade de ir ao encontro das populações marginalizadas e ajudá-las a tomar consciência de seus direitos, incentivando-as a buscar a justiça por meio da mobilização popular e dos canais institucionais. O Grito busca, em suas palavras, “superar essa falsa independência que foi colocada ao longo dos anos”.
Em Mato Grosso, o Grito dos Excluídos se organiza através de uma rede presente em sete das oito dioceses do estado. Articuladores locais trabalham durante todo o ano, dialogando com sindicalistas, coordenadores de movimentos, membros de coletivos e lideranças indígenas para manter a chama da mobilização acesa.

“Nós nos conectamos através dessas lideranças que chamamos de articuladores”, explica Juvenal. Quando as temáticas nacionais do Grito são definidas, o grupo se reúne para identificar quais “gritos” são mais urgentes na realidade mato-grossense.
Este ano, os eixos temáticos como “Democracia e Soberania”, “Renda, Economia e Trabalho” e “Ecologia e Meio Ambiente” têm total conexão com os desafios do estado. “Se tivéssemos fôlego e condições, poderíamos trabalhar todos os eixos temáticos que o Grito traz este ano”, afirma. “Somos uma semente que busca essa tomada de consciência para superar essa falsa independência”.
Para aprofundar a reflexão sobre os desafios locais no contexto do Grito dos Excluídos, acontecerá uma live no dia 02 de setembro. O debate será transmitido pelo YouTube e contará com a participação do professor e jornalista doutor Pedro Pinto de Oliveira, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), e do professor doutor Adilson José Francisco, da Universidade Federal de Rondonópolis (UFR). O encontro virtual abordará o passado e o presente de Mato Grosso, analisando as complexas relações entre democracia, religião e secularização no estado.

























