
Silvio Tendler atravessou a vida respirando a poeira do tempo e devolvendo imagens que ardiam, imagens que surgiam com a violência de um raio e a ternura de um sopro de madrugada, e sua câmera, sempre inquieta, cavava fundo na história como quem busca raízes que ainda palpitam, raízes que não se deixam secar, e cada filme, cada gesto de montagem era uma ferida exposta à luz, de onde jorrava memória, política, o desejo de costurar o tecido esgarçado de um país que insiste em se romper, e havia nele essa obstinação febril, essa sede de convocar os silenciados, de oferecer-lhes de novo a voz, o rosto, o corpo projetado, e assim JK, Jango, Tancredo e tantos outros ressurgiam não como espectros, mas como forças vibrando no presente, capazes de reacender a utopia e lembrar que ainda é possível sonhar.
Nesse fluxo ardente foi se tornando inseparável de seu cinema, como se não houvesse distinção entre homem e obra, e ao se apagar sua respiração, o que se acende é o fogo dos filmes que ficam, cada rolo, cada digitalização guardando não apenas história, mas uma pulsação que não cessa, um ritmo que atravessa gerações, e assim sua partida não é silêncio, é estrondo, não é fim, é passagem, é o gesto de se derramar no espaço coletivo, de infiltrar-se em cada retina, em cada ouvido, em cada coração que um dia se deixou atravessar por sua obra.
Houve quem dissesse que Silvio Tendler se repetia, que suas narrativas giravam em torno dos mesmos mortos ilustres, que sua voz em off soava como sermão solene, que seus arquivos eram tratados com reverência, que sua montagem seguia o compasso do manual, que seus filmes tinham mais da liturgia política do que da poesia do risco, que havia neles louvor em excesso e fenda de menos, que a paixão pelos presidentes depostos era obsessão circular, e diziam ainda que seu cinema era panfleto, catecismo para plateias convertidas, mas cada acusação se dissolvia no instante em que a luz atravessava a sala, porque toda repetição era feitiço, todo arquivo era nervo exposto, toda solenidade era respiração dos mortos, e Tendler não filmava para agradar, filmava para convocar, arrancava da sombra os silenciados, devolvia-lhes a pulsação, e assim a previsibilidade tornava-se rito, o louvor tornava-se chama, o círculo transformava-se em espiral, o panfleto em arma, e no fim de cada murmúrio crítico restava apenas a correnteza das imagens, a febre da memória, a vertigem sem trégua, e agora que o corpo se curva ao chão, é a obra que se ergue inteira, não como pedra fria, mas como labareda insistente, não como estátua muda, mas como torrente que arrasta, não como lembrança distante, mas como presença viva que ainda arde e continuará ardendo na escuridão das salas.
Silvio Tendler permanece como fluxo interminável, como febre que arde depois do corpo, como chama que insiste em se erguer na escuridão de cada sala de cinema, lembrando que viver é não ceder ao esquecimento, é fazer da memória um grito, é transformar a imagem em presença viva, e assim ele segue, diluído em nós, multiplicado em nós, infinito na vertigem de suas próprias imagens.
Pedro Paulo Gomes Pereira é Professor Titular de Antropologia da Universidade Federal de São Paulo

























