Tem um tipo de choro que as mães de crianças autistas conhecem bem e que é diferente de todos os outros. Não é o choro da crise, nem o da consulta difícil, nem o da negativa do plano de saúde. É o choro silencioso que aparece no meio de uma novela, de um filme ou de uma série quando de repente aparece na tela uma criança que se organiza pelo ritmo, que evita contato visual, que tem uma forma de estar no mundo que aquela mãe reconhece no próprio filho. É o choro de quem passou anos sentindo que a experiência da sua família era invisível para o mundo e de repente vê ela refletida numa tela que milhões de pessoas também estão assistindo.
Nos últimos anos, a representatividade do autismo na cultura popular brasileira e internacional cresceu de forma significativa. Novelas com personagens autistas em papéis centrais, filmes que mostram a perspectiva da própria pessoa com TEA, séries que acompanham famílias atípicas com uma profundidade que vai além do estereótipo do gênio solitário. Esse movimento importa muito, porque quando uma história entra na casa de todo mundo pelo televisor, ela não está só entretendo. Ela está ensinando, normalizando e criando empatia em pessoas que nunca tiveram contato real com o autismo e que, mais cedo ou mais tarde, vão cruzar o caminho de uma dessas famílias como colegas, professores, médicos ou vizinhos.
O que as famílias atípicas sentem diante dessa representação, porém, é ambivalente. Tem alívio e tem cobrança. Alívio porque a visibilidade existe, porque o filho começa a se ver refletido em personagens, porque a conversa sobre autismo sai do consultório e entra no barzinho e na mesa de jantar. E tem cobrança porque a representação ainda é frequentemente parcial, ainda privilegia o perfil mais visível do espectro, ainda romantiza a superação sem mostrar a exaustão real, ainda conta a história do autismo como algo que acontece à família em vez de algo que a família vive junto com a pessoa autista. A ficção tem um poder imenso de moldar como a sociedade enxerga um grupo de pessoas e quando ela acerta, muda muita coisa. Quando erra, reforça o que já precisava ser desconstruído.
Existe uma conexão direta entre o que aparece na tela e o que acontece na vida real dessas famílias, e ela nem sempre é simbólica. Quando uma novela de horário nobre coloca um personagem autista em cena e mostra os pais brigando pelo AT na escola, pelo plano de saúde que negou a fonoaudióloga, pelo olhar da família extensa que ainda acha que é frescura, ela está descrevendo uma situação jurídica real que tem solução legal. E aquela mãe que está assistindo no sofá depois de um dia exaustivo e que reconhece cada cena pode não saber ainda que o direito ao acompanhante terapêutico na escola está na Lei Brasileira de Inclusão, que a cobertura de terapias pelo plano é obrigação legal e não favor, que ela não precisa aceitar a negativa como resposta final. A ficção abre a porta. A informação é o que faz a família passar por ela.
Há também um fenômeno mais recente que merece atenção: o das sessões de cinema adaptadas, dos teatros com estruturas sensorialmente amigáveis, dos parques e espaços de lazer que passaram a oferecer horários e condições pensadas para famílias atípicas. Não é só simbólico. É o reconhecimento de que o lazer é um direito, que a inclusão não acontece só na escola e no consultório, que uma criança autista tem o direito de assistir a um filme no cinema com a família sem que o som, a escuridão ou a espera na fila transformem o passeio em sofrimento. Quando esses espaços se adaptam, não estão fazendo um favor. Estão cumprindo o que a Lei Brasileira de Inclusão já determina ao estabelecer que o lazer e a cultura são direitos da pessoa com deficiência que precisam ser garantidos com acessibilidade real.
A cultura popular, quando representa bem, faz algo que nenhuma lei consegue fazer sozinha: ela muda o coração das pessoas antes que elas precisem cumprir qualquer norma. E quando uma família atípica vê o filho representado numa novela, num filme, numa série, ela sente pela primeira vez que o mundo está começando a aprender o idioma dela. Isso não resolve a lista de espera pelo terapeuta, não cancela a reunião difícil na escola, não paga a sessão de musicoterapia que o plano recusou cobrir. Mas diz para essa família, em voz alta e para milhões de pessoas ao mesmo tempo, que ela existe, que a jornada dela importa e que estar nessa estrada não é uma exceção à vida normal. É uma forma legítima, rica e válida de viver.
Gabriella Bretas é advogada, consultora jurídica e pós-graduanda em Neuropsicopedagogia.

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