Dia desses, quando navegava pelas redes sociais, me deparei com um vídeo do deputado Guilherme Boulos, atual ministro da Secretaria Geral da Presidência, lamentando sobre os inúmeros ataques direcionados ao Bolsa-família, como se a ajuda governamental, a um custo de R$ 158,6 bilhões anuais, fosse uma exorbitância. “Mas ninguém fala do ‘Bolsa-banqueiro”, ironiza. Na verdade, a maioria sequer sabe disso (“imagina, o cara já é rico, não precisa de mais dinheiro”, repetem o sofisma) ou acha tudo isso normal (“sempre foi assim e assim continuará”). Os privilegiados fazem cara de paisagem, fingem não ser com eles e, óbvio, se mantêm acordados (em todos os sentidos) para não perderem estes privilégios.
Pelas contas de Boulos, os R$ 815 bilhões investidos no atendimento a uma ampla camada da população brasileira, o que inclui ainda Saúde (R$ 245), Educação (R$ 175), Minha Casa, Minha Vida (R$ 136) e BPC, Benefício de Prestação Continuada, (R$ 112) estão bem distantes do volume destinado a menos de 1 milhão de pessoas. Chegam a R$ 2,185 trilhões (quase o triplo), entre pagamento de juros da dívida pública (R$ 998 bilhões), sonegação (R$ 627) e renúncia fiscal (R$ 560).
Os juros da dívida são pagos a quem empresta dinheiro ao governo. Quase a metade é calculada pela taxa Selic, em 15% desde junho; outros quase 21% por juros pré-fixados; e o restante segue a inflação ou ao dólar. A sonegação fiscal, embora considerada crime, é amplamente utilizada; existe até o devedor contumaz. Sistemática e intencionalmente, ele deixa de pagar tributos para obter vantagem competitiva. Não confundir com inadimplência, um atraso sem a intenção de fraudar.
A renúncia fiscal significa conceder isenção total ou parcial de tributos para estimular determinados setores, apoiar atividades de interesse social ou beneficiar contribuintes específicos. Lembrando: a Lei Rouanet é também uma renúncia fiscal, mas o dinheiro “usado para comprar artistas comunistas”, ao contrário do que muitos papagaios repetem sem parar para pensar, não chega nem no chulé do total concedido. Foram captados R$ 2,3 bilhões em 2024, valor equivalente a 0,34% do total renunciado no mesmo ano, que chegou a R$ 678 bilhões. Dá pra notar que os números de Boulos neste quesito ficou abaixo do pesquisado.
Sim, porque não se deve vender o peixe pelo preço adquirido e nem repassar fake News. Por isso, dei uma conferida nos valores (a internet está aí pra isso, também) e os citados por Boulos são até menores em relação à realidade. No quesito investimentos sociais, minha soma chegou a R$ 906,5 bilhões, enquanto os custos com uma pequena elite financeira chegam a R$ 2,29 trilhões.
Veja só, caro leitor. Faz-se uma gritaria danada, quando se destina menos de 14% das receitas, por exemplo, de R$ 6,53 trilhões, previstas para 2026, aos mais pobres, mas se silencia, quando uma minoria embolsa mais de um terço deste mesmo valor. Bora democratizar isso?

























