
A mineração ilegal em Mato Grosso deixou de ter perfil artesanal e passou a operar com estrutura industrial, financiada por organizações criminosas que também atuam na lavagem de dinheiro e em outras cadeias ilícitas. O diagnóstico foi apresentado pelo diretor da Diretoria da Amazônia e Meio Ambiente (DAMAZ) da Polícia Federal, Humberto Freire, durante a abertura do workshop Rede Integrada no Combate aos Ilícitos Ambientais em Mato Grosso, nesta terça-feira (03.03), em Cuiabá, organizado pelo Programa REM MT.
“O termo garimpo ilegal muitas vezes não é adequado pelo volume de extração e pelo maquinário empregado. O que vemos é quase uma atividade industrial de mineração ilegal”, afirmou o delegado em entrevista ao PNB Online.
Segundo ele, tratores, retroescavadeiras, dragas e motores de alto custo são utilizados na exploração de rios e áreas protegidas, com investimentos que chegam a milhões de reais. “Não é nem de longe uma atividade artesanal. Há organizações criminosas financiando, comandando e lavando os recursos advindos dessa atividade”.
De acordo com a Polícia Federal, a mineração ilegal é hoje a principal frente de crime ambiental no estado. O delegado afirma que o enfrentamento precisa ocorrer em múltiplas frentes. Além da repressão nos locais de extração, a estratégia busca alcançar os elos superiores da cadeia. Para Freire, limitar a resposta penal ao operador da máquina mantém a engrenagem ativa. “Crime organizado sem dinheiro não faz nada. Se não atacarmos o fluxo financeiro, o enfrentamento será sempre parcial”.
Ele acrescenta que há intermediários e prepostos atuando no campo, enquanto financiadores permanecem em condomínios de alto padrão e centros financeiros. “Essas populações locais, muitas vezes, são cooptadas por falta de alternativas econômicas. Quando você combate o crime e erradica essas estruturas, abre espaço para outras oportunidades de renda, inclusive ligadas à preservação”.

Em toda a Amazônia Legal, o crime ambiental mantém conexões com outras modalidades ilícitas. A mesma logística pode servir ao transporte de ouro extraído ilegalmente, drogas oriundas da Colômbia ou da Bolívia e armamentos. Por isso, o crime ambiental figura entre as atividades ilícitas mais rentáveis do mundo, atrás apenas do tráfico de drogas e do contrabando, com movimentação de cifras bilionárias. Na avaliação do delegado, a combinação de penas mais brandas e altos lucros criou um ambiente propício à expansão dessas redes.
Plano Amazônia e cooperação internacional
A resposta institucional, segundo Freire, passa pelo Plano Amazônia Segurança e Soberania (Plano Amas), instituído por decreto federal em 2023. O modelo estabelece governança integrada entre a União e os nove estados da Amazônia Legal, com definição de responsabilidades, criação de comitês estratégicos estaduais e elaboração de planos operacionais conjuntos. Mato Grosso participa da construção desses planos táticos. “É reunir forças estaduais e federais, órgãos de fiscalização e segurança pública, todos atuando com um norte único”, afirmou.
No campo internacional, a estratégia inclui articulação com países amazônicos e organismos multilaterais. A Polícia Federal inaugurou, em 2025, o Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia, em Manaus, para agilizar o compartilhamento de inteligência e facilitar a cooperação jurídica.
Houve ainda a assinatura recente de parceria com a Interpol para criação de força integrada contra o crime organizado, com base em Buenos Aires. A meta é ampliar o acesso a unidades regionais e fortalecer a rede global de combate à criminalidade ambiental.
“Não podemos impor limites à cooperação. Precisamos integrar fiscalização ambiental, investigação policial e também transbordar fronteiras, alcançando países que são destinatários de madeira ilegal, animais traficados e ouro extraído clandestinamente”, disse.
Workshop
Até esta quarta-feira (4), o workshop reúne, no Hotel Fazenda Mato Grosso, representantes da Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Ministério do Meio Ambiente, Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema), Ibama, ICMBio, Forças Armadas e outras instituições estaduais e federais. A proposta é alinhar ações contra desmatamento ilegal, grilagem e extração mineral clandestina na Amazônia Legal, com participação de Mato Grosso na elaboração de planos táticos integrados.
















