Uma das testemunhas do caso Renato Nery, identificada com as iniciais K.H.G., relata que foi torturada por policiais na Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) em 2025, durante as investigações da morte do advogado Renato Nery, ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que foi assassinado em Cuiabá em razão de uma disputa de terras.
Em depoimento realizado no início do mês, K.H.G. disse que foi agredido na delegacia. Ele afirmou, no entanto, que não sabe identificar quem foram os agressores. Por meio de nota, a assessoria de imprensa da Polícia Civil negou a acusação de tortura e disse que os depoimentos foram gravados por meio audiovisual. Veja a nota no final da reportagem.
“Eu apanhei sim. Eu não sei dizer para o senhor quais foram, quais foram as forças, se é Polícia Civil, se é Polícia Militar, se é Polícia Federal. Não sei dizer para o senhor, mas eu eu apanhei sim, doutor. Eu tive um certo tipo de constrangimento por medo de ficar preso, o senhor está me entendendo?”, afirmou a testemunha.
“Inclusive no depoimento, quando tinha o depoimento lá, as perguntas, era umas perguntas já afirmativas”, contou. “Era uma pergunta em cima já de uma resposta para mim confirmar a resposta. E eu com medo de ficar preso, desesperado, apanhado, tudo”, afirmou.
Segundo a testemunha, ele teria sido coagido a afirmar que o acusado Ícaro Nathan Santos Ferreira entregou a arma para o policial militar Heron Teixeira Pena Vieira, que por sua vez repassou a arma para o caseiro Alex Roberto de Queiroz Silva, que confessou ter matado Renato Nery. Em novo depoimento, K.H.G. disse que apenas “deduziu” a informação.
“Isso é uma coisa, doutor, que eu deduzi. Eu deduzi, entendeu? Eu não posso afirmar, eu não tenho certeza disso, foi uma dedução minha. Entendeu?”, declarou.
Em sua fala, K.H.G. demonstrou temor por conta das agressões e manifestou sentir vontade de sair do estado.
“Doutor, só eu sei, eu entre vocês todos os juízes, os promotores, só eu sei o que eu passei e quem sabe disso sou eu”, afirmou. “Inclusive, eu quero deixar registrado aqui nessa audiência que eu tenho medo, medo de ir preso, tenho medo de apanhar e de morrer, doutor. Se eu não tivesse processo para mim, terminar de responder, eu tenho certeza absoluta que eu iria embora de Mato Grosso”, concluiu.
Um laudo do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência revela que a testemunha foi socorrida na delegacia. O laudo foi apresentado por advogados no processo judicial. A testemunha também passou por exame na Perícia de Identificação Técnica (Politec), que apontou marcas de agressão.
“Eu sofri muita pancada na minha cabeça. Eu tenho pressão alta, eu estava sofrendo uma dor muito forte, inclusive eu estava gritando na delegacia, eu estava gritando por socorro lá e aí inclusive os policiais estavam até rindo da minha cara, falando que eu estava fingindo, porque eu estava preso, eu estava fingindo, mas eu estava com muita dor”, diz.
A testemunha contou que passou o dia internado na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do bairro Leblon por conta das agressões.
Outro lado
A reportagem procurou a assessoria de imprensa do Ministério Público de Mato Grosso e da Secretaria de Estado de Segurança Pública para solicitar informações sobre a denúncia de tortura. O Ministério Público não enviou manifestação até o fechamento da reportagem. A Polícia Civil enviou a seguinte nota:
A Polícia Civil, por meio da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), esclarece:
– que em relação às alegações atribuídas à testemunha K.H.G, que o referido indivíduo foi ouvido em sede do Ministério Público, na presença de dois Promotores de Justiça e dois Delegados de Polícia, ocasião em que lhe foi assegurada plena liberdade de manifestação;
– que em nenhum momento, durante sua oitiva no Ministério Público — ambiente formal e absolutamente adequado para eventual relato dessa natureza — o declarante afirmou ter sido vítima de tortura ou qualquer tipo de coação na Delegacia de Polícia;
– que no mesmo dia em que foi colocado em liberdade, o próprio K.H.G. compareceu espontaneamente à unidade policial, sem qualquer convocação, com o objetivo de prestar novo depoimento, alegando ter se recordado de fatos anteriormente omitidos;
– que nesse segundo momento, a oitiva foi integralmente registrada por meio audiovisual, ocasião em que o declarante foi expressamente questionado se estaria sofrendo qualquer tipo de constrangimento para retornar à Delegacia, tendo afirmado de forma clara que não, acrescentando, inclusive, que foi bem tratado pelas autoridades policiais;
A Polícia Civil esclarece ainda que, até o presente momento, não há registro formal contemporâneo de denúncia de tortura perante a instituição, tampouco foram apresentados elementos objetivos que confirmem tais alegações divulgadas.
De todo modo, considerando a gravidade das afirmações, eventuais fatos serão apurados pelos órgãos competentes, com a devida seriedade e imparcialidade.




















