A população prisional de Mato Grosso em regime fechado saltou de aproximadamente 9.600 detentos em 2016 para 16.000 no último dia 30 de janeiro de 2026, conforme dados do Sistema de Informações do Departamento Penitenciário Estadual (SIGEPEN/SEJUS). O crescimento acumulado de 66,6% na década supera em mais que o dobro a média nacional, que ficou em 29% no mesmo período – passando de 726 mil para 938 mil presos em todo o Brasil.
O que mais preocupa especialistas, porém, é a aceleração recente. Entre o final de 2024, quando o estado registrava 13.735 detentos (dados do SISDEPEN/Senappen), e janeiro de 2026, o aumento foi de 17,5% em apenas um ano. O ritmo é quase o triplo da média de crescimento dos anos anteriores e contrasta com a expansão nacional de 3% a 4% no mesmo intervalo.
“Esse salto de aproximadamente 13.700 (final de 2024) para 16.000 (janeiro de 2026) representa um aumento de 17,5% em apenas um ano. Esse ritmo é quase o triplo da média de crescimento dos anos anteriores, o que sugere um endurecimento das políticas de segurança pública ou um aumento significativo na conversão de prisões preventivas”, diz documento assinado pelo Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário e Socioeducativo (GMF), obtido pela reportagem do PNB Online.
Os dados, no entanto, carregam controvérsias. Em 2022, uma divergência histórica marcou as estatísticas: enquanto o 16º Anuário Brasileiro de Segurança Pública apontava mais de 17 mil presos em Mato Grosso, a Secretaria de Estado de Segurança Pública (SESP-MT) sustentava o patamar de 11 mil.
A diferença, explicam os documentos, residia na metodologia: o Anuário incluía monitorados por tornozeleira eletrônica e pessoas em regime aberto, enquanto o estado focava apenas nos regimes fechado e semiaberto. Para 2026, considerando apenas o regime fechado, o estado já atingiu a marca de 16 mil – mas, se somadas todas as modalidades (semiaberto, aberto e monitoramento eletrônico), a população sob custódia do estado pode chegar a 20 ou 23 mil indivíduos.

O peso das interdições
Paralelamente ao crescimento vertiginoso, o sistema penitenciário mato-grossense enfrenta um gargalo judicial de grandes proporções. Pelo menos 18 unidades prisionais estão interditadas por decisões da Justiça, conforme lista anexa aos documentos. Entre elas, cadeias públicas masculinas e femininas em municípios como Alta Floresta, Sorriso, Diamantino, Rondonópolis, Sinop e Cuiabá, além de centros de detenção provisória em Lucas do Rio Verde, Juína e Tangará da Serra.
A lista inclui unidades de grande porte, como a Penitenciária Regional de Sinop (Dr. Osvaldo Florentino Leite Ferreira, conhecida como “Ferrugem”) e a Unidade Prisional Regional Major Eldo Sá Corrêa (Mata Grande), em Rondonópolis, além da Penitenciária Regional Feminina Ana Maria do Couto May.
Embora a taxa média de ocupação estadual esteja em 126% (16 mil presos para 12.947 vagas), índice inferior à média nacional de 150,3%, especialistas alertam para a má distribuição da população carcerária. O excedente de 3.438 detentos não está espalhado uniformemente. Unidades como a de Barra do Garças operam com 167% de ocupação, enquanto unidades da capital frequentemente superam a média nacional, transformando pontos específicos em “possíveis focos de colapso e crises”, segundo o relatório do Geopresídios (CNJ).

A porta que não fecha
Um estudo do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) realizado em 2020 revelou que Mato Grosso possui uma taxa de reincidência criminal de 41% em até cinco anos. O índice ajuda a explicar por que, mesmo com a abertura de novas vagas e mutirões judiciários, a população prisional continua subindo: “a porta de saída ainda é menos eficiente que a porta de entrada”, resume a análise.
Os documentos apontam ainda que, em 2020, no início da pandemia, a população prisional oficial da SESP-MT era de 11.874 pessoas. Em 2023, após revisões do CNJ e da própria secretaria, os números foram reajustados para 12.300. A partir de então, a curva tornou-se mais acentuada.
Cenário nacional e projeções
Enquanto o Brasil mantém crescimento moderado, Mato Grosso registra o que os pesquisadores chamam de “explosão” recente. As projeções indicam que, mantido o ritmo médio anual de 6% a 8%, o estado pode atingir 15.218 presos ainda no primeiro semestre de 2026 – número já superado pelos dados de janeiro.
O fenômeno de 2025, com aceleração de 17,5% em um ano, é atribuído a fatores como endurecimento penal, maior eficiência na conversão de prisões preventivas e aumento das operações policiais. A situação é agravada pela ausência de políticas públicas eficazes de reinserção social e pelo déficit estrutural nas unidades.























