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MANIPULAÇÃO TOTAL

A extrema direita cria mulher de mentira para manipular “clamor das massas”

Seguidores do bolsonarismo criam avatar de pessoas comuns, estereótipos criados para simular povo. A democracia pressupõe o encontro de cidadãos de carne e osso, não o choque de algoritmos programados para enganar. Essa manipulação digital pode confundir eleitores e até o Poder Judiciário. Ou seja, para além do conteúdo em si, é na forma que a justiça precisa concentrar o seu julgamento. Povo criado em laboratório digital, que não existe, pode falar como se fosse povo de verdade? Entramos na Era da farsa do “clamor das massas” manipulada com o uso da IA.

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O projeto de poder da extrema direita mostra sua face de vale tudo, sem pudor, para ganhar as eleições a qualquer custo. No plano real, a extrema direita bolsonarista chegou ao limite da destruição da democracia com a tentativa de golpe. No mundo real, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) foi julgado e condenado por liderar uma tentativa de golpe contra o estado democrático de direito. Para seus seguidores submissos, é tudo narrativa, é o que querem que seja, a verdade é a primeira coisa a ser engolida pelos extremistas.

A IDEIA DE POVO DA EXTREMA DIREITA: NEGRO, GORDO E POBRE

No plano virtual, está em curso um projeto de propaganda política nas redes sociais onde a extrema direita cria pessoas de mentira para simular performances que possam gerar engajamento pelo tom da montagem de uma falsa indignação. É um passo além dos robôs que multiplicam mensagens, é a criação de “pessoas comuns” que possam fazer o papel de um povo brasileiro. A criação da extrema direita revela de imediato um preconceito contra o próprio povo brasileiro. Qual é a ideia de gente simples? Criaram uma mulher negra, gorda e pobre para atacar o governo do presidente Lula. A ideia da estratégia comunicativa é óbvia: usar um personagem que represente um estereótipo do eleitorado de Lula, criando uma espécie de cunha neste eleitorado, criando defecções.

É o caso de uma personagem que emergiu nas redes sociais: dona Maria. Uma das falas que se destacaram nas críticas a Lula nas redes sociais naquele momento veio de uma voz e um rosto que não existem para além das redes sociais. A mulher criada na manipulação digital não existe.

Era Dona Maria, um avatar criado com inteligência artificial para representar uma mulher negra, idosa e gorda que fala palavrões e se diz revoltada com a situação do país.

Na imagem, Dona Maria, criada com ferramentas do Gemini, a inteligência artificial do Google, fala em um microfone, como se estivesse em um discurso, com plateia ao fundo.

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Os comentários se dividem: alguns diziam que queriam vê-la discutindo com Lula, outros reclamaram do excesso de palavrões. Um afirmou que ela “lavou a alma dos brasileiros.”

Reprodução/Dona Maria/Instagram

DONA MARIA NÃO É GENTE DE VERDADE

Ninguém, ninguém, questionou o fato de Dona Maria não ser uma pessoa de verdade.

O criador do perfil, que diz trabalhar como motorista de aplicativo e usar a página para complementar a renda, afirmou em entrevista à BBC News Brasil que não tem candidato.

Mas diz também que não teria dúvidas entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), que aparecem como os nomes mais competitivos à presidência nas pesquisas de opinião até agora: se pudesse, conta, faria campanha para o candidato da extrema direita bolsonarista de graça.

DESAFIO PARA O PODER JUDICIÁRIO

Para especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, esse tipo de conteúdo gerado por IA poderá ser usado para mobilizar eleitores, abastecer candidatos com menos recursos e mobilizar campanhas não oficiais, com críticas a candidatos que poderiam violar regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Há também um risco, segundo os especialistas, de que esse tipo de conteúdo possa confundir eleitores e até o Poder Judiciário. Ou seja, para além do conteúdo em si, é na forma que a justiça precisa concentrar seu julgamento. Povo criado em laboratório digital, que não existe, pode falar como povo de verdade, pode falar como boneco de ventríloquo? 

O uso de avatares ou perfis falsos que simulam “pessoas reais” em períodos eleitorais toca em um ponto nevrálgico da saúde democrática. A resposta curta é: sim, representa uma ameaça significativa, e os motivos vão além da simples mentira.

Aqui estão os principais pontos para entender por que essa prática é considerada perigosa:

  1. Fabricação de Consenso (Astroturfing)

A democracia baseia-se na ideia de que os cidadãos podem observar o que a maioria pensa para formar sua própria opinião. Quando milhares de avatares simulam um apoio popular a um candidato, cria-se o efeito Astroturfing (um movimento de base artificial). Isso confunde o eleitor real, fazendo-o acreditar que existe um “clamor das massas” que, na verdade, é apenas código de programação.

  1. Erosão da Esfera Pública
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Para que o debate democrático funcione, é preciso haver responsabilidade (accountability).

Pessoas reais: Respondem legal e socialmente pelo que dizem.

Avatares: Podem destilar ódio, fake news e ataques sem rosto, destruindo a possibilidade de um diálogo racional. Se não sabemos se estamos falando com um humano ou um robô, a confiança — base de qualquer sociedade — desaparece.

  1. Desequilíbrio do Pleito

Eleições devem ser decididas pelo poder do voto e do argumento, não pelo poder do orçamento para infraestrutura de TI. Candidatos com mais recursos podem comprar “exércitos digitais”, silenciando vozes orgânicas e criando uma vantagem injusta que fere o princípio da igualdade na disputa eleitoral.

  1. O Papel da IA Generativa

Com o avanço da IA, esses avatares agora possuem:

Fotos ultra-realistas: Geradas por redes como StyleGAN (pessoas que não existem).

Linguagem natural: Capazes de argumentar e interagir de forma personalizada, tornando a detecção muito difícil para o cidadão comum.

O que diz a legislação?

No Brasil, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tem endurecido as regras. O uso de robôs para simular identidade humana ou o impulsionamento de conteúdo por perfis falsos pode configurar abuso de poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação, levando à cassação de mandatos.

Resumindo e baralhando: A tecnologia em si é neutra, mas quando usada para mimetizar a vontade humana, ela corrói a autenticidade do processo eleitoral. A democracia pressupõe o encontro de cidadãos de carne e osso, não o choque de algoritmos programados para enganar.

*Pedro Pinto de Oliveira é jornalista e professor da UFMT. Mestre em Ciências da Comunicação e Doutor em Comunicação pela UFMG.

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