Em fase de montagem, marqueteiros de um candidato estão fabricando a maior mentira a ser contada nestas eleições em Mato Grosso. É preciso muita ousadia e cinismo para destruir um fato e colocar no lugar a versão mentirosa para enganar o eleitor. A trama em curso: inverter a culpa no episódio de violência doméstica, acusando a mulher vítima da agressão de ser a agressora e o homem agressor de ser a pobre vítima indefesa da violência cometida pela mulher. Quando um político utiliza uma estratégia de inversão de culpa em casos de violência doméstica, a crítica não se limita apenas ao ato de violência em si, mas expande-se para o caráter público e a ética democrática.
- Manipulação da Opinião Pública
A tentativa de criar uma “versão fantasiosa” é, essencialmente, uma fraude eleitoral moral. Critica-se a utilização de recursos (muitas vezes financeiros e de marketing) para construir uma narrativa falsa, o que demonstra um desrespeito profundo pelo direito do eleitor à verdade e à transparência.
- Revitimização e Violência Psicológica
Ao inverter o papel e se colocar como vítima, o político perpetua uma nova forma de agressão contra a mulher. Essa tática é conhecida tecnicamente como DARVO (Deny, Attack, and Reverse Victim and Offender — Negar, Atacar e Inverter Vítima e Ofensor). Critica-se o uso do poder para silenciar a vítima real e a exposição da vida privada da mulher para destruir sua reputação.
- Desserviço às Políticas Públicas
Um representante público tem o dever de zelar pelas leis. Quando um político mascara a violência doméstica ele: a) enfraquece a Lei Maria da Penha (ou legislações correlatas); b) desencoraja outras mulheres de denunciarem, já que o agressor usa sua influência para parecer inocente; e c) reforça o estereótipo da “mulher louca ou agressiva”, um tropo misógino usado historicamente para descredibilizar vozes femininas.
- Falta de Integridade e Responsabilidade
A capacidade de governar está ligada à responsabilidade pelos próprios atos. Se um indivíduo não consegue assumir erros na esfera privada e busca enganar a sociedade para manter o poder, sua integridade para gerir a coisa pública é questionável. A crítica aqui foca na incongruência ética: quem manipula a verdade em casa, tende a manipular a verdade na administração pública.
- Instrumentalização do Sistema Judiciário
Frequentemente, essas versões envolvem o uso de denúncias vazias ou processos judiciais estratégicos contra a vítima para dar “ares de verdade” à narrativa. Isso é criticado como um abuso do sistema de justiça para fins políticos e pessoais.
Platão, teoricamente, admitia a mentira na política se usada por profissionais para o bem, como um “remédio”. O remédio que está sendo elaborado na fábrica de mentiras na verdade é usado para o mal, um veneno contra as mulheres de Mato Grosso.
Maquiavel argumentava que é necessário ser um grande enganador para manter o poder. A conferir quanto a mentira precisará ser contada para ficar de pé e fazer a população acreditar que o agressor é a vítima.
*Pedro Pinto de Oliveira é jornalista e professor da UFMT. Mestre em Ciências da Comunicação pela USP e doutor em Comunicação pela UFMG
























