O dia 12 de maio foi nomeado como o Dia Mundial de Conscientização da Fibromialgia e de algumas outras doenças crônicas e imunológicas. A data foi escolhida em homenagem a Florence Nightingale, que nasceu no dia em 1820, e foi fundadora da enfermagem moderna. Ela passou parte da vida adulta doente, com sintomas semelhantes aos da fibromialgia e encefalomielite miálgica.
A fibromialgia permanece cercada por incompreensões médicas, sociais e jurídicas. Durante muito tempo, mulheres diagnosticadas foram tratadas como pessoas “emocionalmente frágeis”, “exageradas” ou incapazes de suportar os desafios ordinários da vida. Entretanto, a ciência contemporânea vem demonstrando que a dor tem memória, e o corpo registra aquilo que a violência tenta esconder.
Essa é uma enfermidade complexa, marcada por dores difusas, fadiga crônica, distúrbios do sono, ansiedade, depressão e hipersensibilidade física e emocional. Embora possa atingir qualquer pessoa, a esmagadora maioria são mulheres. Muitas delas possuem histórico de violência doméstica, abuso psicológico, agressões físicas, violência sexual ou relações afetivas marcadas pelo medo e pela humilhação cotidiana.
A sociedade ainda insiste em enxergar a violência doméstica apenas pelos hematomas visíveis e pelo olho roxo. Contudo, existem feridas que não aparecem em fotografias periciais. Há dores que não deixam sangue no chão, mas produzem destruição profunda no sistema nervoso, na autoestima e na própria percepção de dignidade humana. Algumas mulheres sobrevivem durante anos sob tensão permanente, convivendo com ameaças, manipulações emocionais, controle financeiro, isolamento social e agressões silenciosas.
A cultura patriarcal historicamente as ensinou a suportarem o sofrimento em silêncio. Desde cedo, muitas aprendem que precisam “aguentar pelo bem da família”, “ter paciência”, “evitar conflitos” ou “preservar o casamento”. Essa submissão produz consequências devastadoras. E quando adoecem, o diagnóstico vem acompanhado de preconceito.
Mulheres relatam peregrinação interminável por consultórios médicos escutando que “não têm nada”, e que os exames estão normais. Ou, ainda, que “o problema é psicológico”. Assim, em ambientes de trabalho são vistas como improdutivas, e em casa como preguiçosas.
Historicamente, a medicina foi construída sob paradigmas masculinos. Durante séculos a dor feminina foi associada à histeria, ao descontrole emocional ou à fragilidade moral. Embora a ciência tenha avançado, parte desse imaginário permanece culturalmente vivo. Mulheres com fibromialgia precisam provar repetidamente que a sua dor existe.
A dimensão é social, emocional e política. Estudos têm identificado correlação significativa entre experiências traumáticas e o desenvolvimento da fibromialgia.
Quando há falha do Estado na proteção das mulheres, quando a sociedade silencia diante da agressão, quando instituições relativizam denúncias, contribui-se para a perpetuação de doenças invisíveis que consomem vidas lentamente.
Essa discussão exige abordagem multidisciplinar e humanizada. Como a doença não produz alterações visíveis em exames laboratoriais, mulheres enfrentam o descrédito institucional, sendo consideradas aptas para o trabalho quando estão incapacitadas. É cruel exigir que alguém demonstre objetivamente uma dor que a própria medicina reconhece como subjetivamente intensa.
É o momento de romper com a invisibilidade. Imprescindível falar sobre saúde mental feminina sem preconceitos, retirando a desconfiança em relação à respectiva dor. A violência psicológica mata lentamente. Profissionais precisam de preparo para reconhecer vínculos entre trauma e adoecimento crônico. A escuta empática é indispensável. A violência adoece…
Rosana Leite Antunes de Barros é defensora pública estadual, mestra em Sociologia pela UFMT, doutoranda em Educação pela UFMT, membra do IHGMT e da Academia Mato-grossense de Direito na Cadeira 29.

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

























