Pensava em escrever sobre os 138 anos da chamada Lei Áurea, a completar na quarta-feira, 13. (Na verdade, sobre o 14 de maio, quando o liberto “saiu por aí. Sem trabalho, sem casa, sem ter para onde ir. Ninguém lhe deu bola e não teve lugar na escola. Mesmo assim ainda resiste”, mesmo que aos trancos e barrancos*). Porém, as reações sobre o recente encontro entre Lula e Trump mudou meu rumo.
Pela extrema direita, Flávio Bolsonaro, a contragosto de seu partido que preferia nada comentar, tentou lacrar. Antes da reunião, postou um vídeo, produzido por inteligência artificial, onde Lula, ajoelhado e chorando, implora a Trump para não considerar as facções brasileiras (PCC e Comando Vermelho) como organizações terroristas. Como se sabe, Trump chegou a usar esse argumento para sequestrar Nicolas Maduro na Venezuela.
Mas deu com burros n’água, porque aconteceu o contrário, admitido pela própria turma da Faria Lima, cuja avaliação foi completamente oposta. Para os donos da bufunfa, o encontro foi “importante e oportuno”. Segundo o broadcast.com.br, o clima amigável (bem oposto ao acontecido, por exemplo, com o ucraniano Zelensky, constrangido ao vivo, e com líderes da União Europeia, acusados de não entregar o negociado), “foi bem recebido, com a expectativa de que as tensões comerciais sejam atenuadas”. Até o agronegócio, cuja boa parte tem ojeriza ao petista, recebeu “com cautela e otimismo moderado”.
Embora nada tenha se decidido (a área técnica de ambos os países dará a sugestão final), a “química” continua, pelo menos pelo lado trumpista. Lula, já em seu terceiro mandato presidencial e caminhando para o quarto, negociador habilidoso, forjado em seu período como sindicalista no Grande ABC paulista, conhecedor do tamanho de seu cacife, não precisou blefar. Além de ser um dos poucos presidentes brasileiros respeitado em escala mundial (embora boa parte da bolha, infelizmente ignara, desconheça o que isso significa), tem boas cartas na manga. A China é uma delas. Entre 2003, em seu primeiro mandato, e 2025, o comércio entre os dois países saltou de US$ 6,6 bilhões para US$ 171 bilhões. Em contrapartida, entre Brasil e EUA caiu pela metade entre 2001 e 2024. Lembrando: o Brasil tem outros parceiros comerciais, como Argentina, Holanda, Espanha, México, Singapura, Canadá, Chile e Índia, entre vários outros países.
Resumo da ópera: É como se disséssemos aos EUA. Tá tirando onda? Se não quiser, temos a quem vender e “sem tarifaço”. Por falar no “tarifaço”, ele não agradou em nada aos consumidores norte-americano. Os preços estão subindo, a inflação de março deste ano (0,7%) foi a mais alta dos últimos três anos, o poder aquisitivo da classe média caiu e aumentou o nível de pobreza. E ainda tem toc-toc das eleições legislativas de novembro batendo à porta. Se perder, ele pode se lascar.
(*) Interpretação pessoal da letra da canção 14 de Maio, dos baianos Jorge Portugal e Lazzo Matumbi.
Jairo Pitolé Sant’Ana é jornalista

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

























