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ARTIGO

A realidade como experiência

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A narrativa da filosofia é entrelaçada por mentes brilhantes que esculpiram sistemas deslumbrantes, levantaram ideias imponentes e montaram labirintos complicados de raciocínio. Existem aqueles, por outro lado, que se atrevem a mexer com aquilo que parecia tão claro quanto água: eles plantam a sementinha da dúvida onde antes havia certeza. George Berkeley se encaixa direitinho nesse segundo grupo. Raros pensadores do passado tiveram a audácia de duvidar de algo que parece tão elementar como a realidade do universo físico. E muito menos se aventuraram a fazer isso com tanta intensidade.

Pensador irlandês do século 18, Berkeley revisitou uma das ideias mais instigantes do ocidente: “ser é ser visto”, ou seja, a existência depende da percepção. A expressão, que desafiou o passar dos anos, não é apenas uma brincadeira mental. Ela faz uma dança ousada para redimensionar o vínculo entre o que é real, como vemos isso e o que sabemos a respeito. Berkeley questionava: será que existe mesmo uma substância que não dependa do pensar? Ou será que o que denominamos de mundo não pode ser dissociado da vivência que temos a respeito dele?

Num primeiro olhar, a indagação parece sair de um conto de fadas. No fim das contas, o bom e velho senso popular nos conta que as coisas permanecem por aí, firmes e fortes, mesmo quando não há olhos à espreita para conferir. Uma árvore repousa quietinha no sereno da noite; já uma montanha não se desmaterializa só porque decidimos dar um tempinho nos olhos. Porém, Berkeley realoca a questão. O que sabemos sobre a árvore? A sua tonalidade, contorno, consistência e aroma — em outras palavras, tudo que se apresenta para as percepções. Jamais conseguimos enxergar de forma direta uma “matéria oculta” que se esconde atrás da nossa visão das coisas. Só estamos a par de conceitos que dançam nas brumas da nossa imaginação.

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Sua análise foca especialmente nas ideias de John Locke, que separava as qualidades dos objetos em primárias e secundárias, como se fossem diferentes temperos em um prato. Locke aceitava a ideia de que existe um mundo físico lá fora, responsável por gerar aquilo que sentimos. Berkeley não aceita essa divisão. Para ele, não faz sentido imaginar que existe uma substância escondida e fora de alcance. O universo é feito de impressões e almas que observam.

A resposta rápida geralmente é apontar o dedo e falar que se trata de um idealismo exagerado. Como é possível que algo persista no mundo se não há ninguém jogando um olhar sobre ele? Berkeley afirma, com firmeza, que Deus está sempre de olho em tudo, como um vigia eterno. A continuidade do universo não está atrelada ao olhar humano, mas sim à visão celestial. Dessa forma, o cosmos não evapora quando nos afastamos de um cenário, pois continua firme como um balão em festa, amparado por uma percepção sem limites.

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Atualmente, essa resposta pode soar como uma ode religiosa em demasia. No entanto, transformar Berkeley em uma simples nota de rodapé na metafísica seria uma verdadeira trapalhada. Sua mente foi como uma bola de cristal, prevendo dilemas que iriam cutucar a filosofia dos tempos que viriam. Ao destacar vivências e formas de enxergar o mundo, desbravou trilhas que moldariam discussões acerca de fala, saber e individualidade.

Suas preocupações têm uma modernidade que salta aos olhos! Nossos dias são como um palco onde a realidade dança ao ritmo das experiências pessoais e das engenhocas tecnológicas que a cercam. A conversa em voga sobre bolhas de informação e universos digitais alternativos traz, mesmo que de maneira indireta, ressonâncias da clássica questão de Berkeley: até que ponto realmente compartilhamos um mundo que vai além das nossas percepções?

É por aí…

Gonçalo Antunes de Barros Neto (Saíto) tem formação em Filosofia, Sociologia e Direito ([email protected]).

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

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