A forma como uma civilização concebe sua própria relação com a história é crucial. Essa consideração de Gianni Vattimo, contida em Diálogo com Nietzsche, parece adquirir uma dramaticidade específica no século XXI. Jamais a humanidade se encontrou tão interligada, tão ciente das informações e, de maneira paradoxal, tão afastada da memória. Atualmente, a civilização ocidental vivencia uma experiência sem precedentes: a simultaneidade global instaurou uma espécie de tirania perpétua, comprimindo o tempo histórico e debilitando as conexões com o passado.
O Ocidente foi edificado a partir de uma extensa interação com a história. A filosofia grega, o direito romano, o cristianismo, o humanismo da Renascença e o Iluminismo — todos esses fatores constituíram uma sequência de continuidade que possibilitou à civilização ocidental refletir sobre sua própria história. Até mesmo as quebras contemporâneas estabeleciam um diálogo com tradições anteriores. Friedrich Hegel percebia a história como um processo racional, enquanto Friedrich Nietzsche, apesar de sua crítica à tradição, entendia que a superação do passado pelo homem só seria possível mediante o seu enfrentamento.
No entanto, atualmente, a relação aparenta ser diferente. O passado não é mais experimentado como uma herança, mas, frequentemente, como um fardo a ser desprezado. A lógica da conectividade mundial favorece a rapidez, a atualização constante e o consumo instantâneo de informações. Tudo se deteriora com celeridade. Informações tornam-se irrelevantes em questão de horas; discussões se esvanecem em poucos dias; elementos culturais perdem a contemporaneidade antes mesmo de se consolidarem. A era digital não consolida a memória — acumula fragmentos.
Essa alteração impacta de maneira significativa a vivência civilizatória. Zygmunt Bauman caracterizou a atualidade como “modernidade líquida”, um contexto em que as relações, instituições e identidades tornam-se instáveis. Nesse contexto, o passado não exerce mais a função de fundamento, sendo tratado como um acervo acessível para uso seletivo. Não existe sequência; há uma curadoria imediata da memória.
A conectividade global aprofunda ainda mais esse fenômeno. De forma inédita, bilhões de indivíduos disseminam simultaneamente o mesmo conjunto de informações, imagens e discursos. As fronteiras culturais tornam-se permeáveis, mas também superficiais. O desfecho é ambivalente: por um lado, há uma ampliação do acesso ao conhecimento; por outro, observa-se um enfraquecimento da profundidade da experiência histórica. Sabe-se muito, porém entende-se pouco.
Nesse contexto, a civilização ocidental aparenta vivenciar uma crise de temporalidade. Não se orienta de maneira clara nem pelo passado nem pelo futuro. O atual contínuo das redes digitais gera uma percepção imediata, constante, na qual tudo requer comentários instantâneos; entretanto, quase nada perdura. A memória coletiva, que antes era elaborada gradualmente por meio de instituições, publicações e tradições, agora está submetida a disputas entre algoritmos e modismos efêmeros.
Existe, igualmente, uma alteração na concepção de autoridade cultural. Por longos períodos, o Ocidente organizou-se com base em referências que eram, em grande medida, estáveis — instituições de ensino superior, cânones da literatura, entidades religiosas e sistemas filosóficos. Atualmente, essas referências convivem com uma diversidade caótica de expressões. Esse fenômeno apresenta uma dimensão emancipadora: desmantela monopólios culturais e promove a democratização do acesso à expressão verbal. Entretanto, também apresenta um risco: a desintegração de critérios comuns de significado.
O passado não deve se tornar uma cela, contudo, não deve ser visto apenas como uma ruína a ser desprezada. Vattimo, por sua vez, influenciado por Nietzsche, desconsidera a noção de verdades absolutas e tradições inalteráveis. A questão não reside em reinterpretar o passado, mas em eliminá-lo totalmente como um horizonte de significado. Uma civilização desprovida de memória arrisca a tornar-se exclusivamente presente — e o presente desconectado de sua história tende à superficialidade.
É por aí…
Gonçalo Antunes de Barros Neto (Saíto) tem formação em Filosofia, Sociologia e Direito.

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online























