O cenário político brasileiro, atualmente, é marcado por uma profunda polarização entre os campos progressista e conservador. No entanto, um fenômeno recente reacendeu o alerta urgente para o movimento estudantil e a juventude trabalhadora: o crescimento expansivo de jovens, e inclusive de adultos de até 40 anos, que disseminam a visão de mundo da extrema-direita. E essa adesão vem provocando uma verdadeira onda de desinformação e de discursos discriminatórios na internet. Mas por que a juventude tem sido seduzida por essa engrenagem? A resposta para isso está na sofisticação do uso das redes sociais pela reação conservadora.
Polêmicos e extremamente agressivos, os novos candidatos da extrema-direita compreenderam perfeitamente a lógica de plataformas como o X (antigo Twitter), Instagram e TikTok. O letramento digital desses setores é cirúrgico: eles se aproveitam da rebeldia e do sentimento de contestação natural dos jovens para canalizá-los em direção a ideias radicais.
Como bem analisa Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, os algoritmos dessas plataformas se alimentam da polêmica e retroalimentam o radicalismo. Os setores da direita radical aprenderam, inclusive, a utilizar pautas de grande apelo popular, como por exemplo o “Fim da escala 6×1”, e pautas do campo da segurança pública, da saúde, educação e de outras áreas, transformando-as em verdadeiras “iscas” digitais. O objetivo não é debater o problema seriamente, mas sim “furar a bolha” algorítmica, atrair novos públicos e capturar a indignação juvenil.
Uma vez fisgada por essa lógica, a juventude passa a criar comunidades digitais engajadas em torno de um objetivo abstrato: a “derrubada do establishment” (da ordem vigente). Segundo Meirelles, a estratégia antissistema é semelhante à que consagrou a ascensão de Jair Bolsonaro, mas com uma roupagem técnica muito mais apurada e capaz de “transformar seguidores em soldados que trabalham pelos recortes de vídeos”, espalhando ainda mais o discurso manipulador da extrema-direita.
É preciso olhar também para o recorte social desse fenômeno. Cila Schulman, CEO do Instituto Ideia, aponta que o perfil desse novo eleitorado é muito parecido com a base histórica do bolsonarismo: majoritariamente masculino e escolarizado. A grande diferença é apenas geracional. Enquanto Bolsonaro dialogava com eleitores acima de 35 anos, a nova cepa da direita radical conquistou os mais jovens. E esse movimento encontra forte ressonância na classe média e em jovens com renda superior a cinco salários mínimos. Trata-se de uma geração pressionada pela promessa de prosperidade material (como a conquista da casa própria ou do carro), mas que enfrenta a dura realidade de um mercado de trabalho precarizado.
É nesse vácuo que o discurso ilusório da meritocracia entra como luva. Ao mascarar a realidade, a extrema-direita captura o sonho do jovem e o transforma em combustível para o engajamento digital, ignorando deliberadamente que a superação das desigualdades regionais só acontece com políticas públicas robustas.
Para nós, que atuamos na base do movimento estudantil e dialogamos direta e diariamente com a juventude, o desafio está lançado. Disputar a consciência e senso crítico dessa geração exige mais do que apontar os erros da direita. Exige ocupar as redes, as ruas, as escolas e outros espaços com a mesma intensidade, desmascarando as ilusões digitais que são apresentadas por esse grupo, e apresentando um projeto real de futuro, direitos e dignidade para a juventude brasileira.
Layan de Moura é diretor da UEE-MT e Estudante de Pedagogia da UFMT

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

























