O segundo turno é uma eleição diferente. É, na prática, uma nova eleição. Tudo o que passou ficou para trás, mas esse passado continua servindo como referência para avaliar erros, corrigir estratégias e planejar os próximos passos diante de um único adversário.
As dúvidas ficam soltas no ar e também na cabeça de todos: até onde será importante buscar o apoio dos candidatos eleitos — governadores e parlamentares? Será necessário mudar a imagem do candidato? Será que a entonação da voz pode vencer uma eleição? Será a hora de contratar um novo marqueteiro, daqueles que sabem trocar os pneus com o carro andando?
São tantas dúvidas, sem deixar de pensar também nas dívidas.
O segundo turno traz novos ingredientes políticos e novas características. A começar pelo horário eleitoral gratuito, no qual os dois candidatos passam a ter condições mais equilibradas de exposição. Por isso, será fundamental estar preparado para os novos enfrentamentos, inclusive para os debates “olhos nos olhos”.
E certamente haverá tentativa de desconstrução da imagem dos candidatos. O passado de cada adversário será vasculhado em busca de erros, contradições e fatos que possam ser utilizados no momento certo — principalmente no ápice das discussões e, muitas vezes, na reta final do embate.
O segundo turno é como uma decisão de campeonato que chega à prorrogação. As duas equipes já estão cansadas, desgastadas e com pouco tempo para recuperar as energias. A folga é curta. Em poucos dias, começa tudo novamente.
É como se o jogo recomeçasse com o placar zerado.
Por isso, é fundamental desfazer o clima do “já ganhou”. Em uma eleição, todos os detalhes são importantes, porque são justamente os pequenos descuidos que podem provocar grandes tropeços.
Agora, cabe a nós, eleitores, não sermos omissos. A omissão não ajuda a construir a democracia. É votando que aprendemos a votar, é participando que aprendemos a escolher e é exercendo nossa cidadania que fortalecemos a democracia.
Infelizmente, o resultado do primeiro turno também revelou um número expressivo de eleitores que preferiram não participar. Alguns por protesto; outros por descrença; outros ainda por repulsa aos políticos e à maneira como a política vem sendo conduzida.
Mas não votar também é uma escolha — e toda escolha produz consequências.
O voto é uma das ferramentas que podem transformar aquilo que está errado na vida de um país. É por meio dele que preservamos a democracia e mantemos a possibilidade real de substituir dirigentes incompetentes, desonestos ou incapazes de representar os interesses da população.
Entretanto, é preciso reconhecer uma verdade: nem sempre a maioria representa necessariamente a melhor composição possível da sociedade. O eleitor pode se equivocar, pode escolher movido pela emoção, pela propaganda, pelo medo, pela revolta ou até pela falta de informação.
Por isso, o voto consciente é tão importante.
O segundo turno oferece ao eleitor uma nova oportunidade de analisar, comparar e decidir. É mais um momento para separar promessas de propostas, discurso de realidade e aparência de conteúdo.
O importante é votar.
De eleição em eleição, vamos aperfeiçoando nossa democracia. Cada escolha deixa uma experiência, cada resultado produz consequências e cada participação ajuda a construir a consciência política da sociedade.
O segundo turno, portanto, pode ser compreendido como uma espécie de último filtro da vontade popular: uma nova oportunidade para o eleitor peneirar suas escolhas, retirar os excessos, reconsiderar suas convicções e decidir, entre os dois caminhos restantes, qual deles deseja seguir.
No fim, a urna não pergunta quem somos apenas como eleitores.
Ela revela, também, aquilo que estamos dispostos a aceitar como sociedade.
E é por isso que o segundo turno não deve ser tratado como uma simples continuação da eleição.
É uma nova oportunidade de escolha.
É a última peneira da democracia antes que o povo entregue, novamente, o poder a alguém.
Wilson Carlos Fuáh é escritor, radialista, cronista e observador atento da vida política e social de Mato Grosso, é graduado em Ciências Econômicas

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

























