Na política não há fórmula mágica para o sucesso de uma trajetória pessoal. Aplicada ao setor do agronegócio então, o caso de ser um empresário bem sucedido, com uma fortuna no banco, não significa que ele terá sucesso na entrada para a política partidária, com vitória garantida em qualquer eleição.
Para efeito de análise, vejamos o caso de dois empresários do agro, um do passado recente, Blairo Maggi, um caso de sucesso, e outro, Odílio Balbinotti Filho, que ensaia atualmente um voo de passagem do balcão dos negócios particulares para o balcão dos negócios de interesse público na política.
A pergunta que move a questão: Odílio Balbinotti Filho pode ser um novo Blairo Maggi? Hoje é improvável que chegue a essa condição de ser uma nova liderança empresarial e política. Senão, vejamos:
– Blairo começou de baixo: entrou na política eleitoral como primeiro suplente do falecido Jonas Pinheiro, eleito senador em 1994. Jonas talvez tenha sido o último político da Baixada Cuiabana, da política tradicional, a representar os interesses do emergente agronegócio. Os empresários do agro colocaram o pé na política e nunca mais precisaram de intermediários.
– Blairo, ao contrário do que se imaginava, tinha sim militância política: ele atuou na unidade dos empresários para entrar no jogo partidário a partir de Rondonópolis, para tomar as rédeas do processo e decidir os melhores caminhos do setor. Liderou a unidade da aliança entre a política e a economia, um divisor, para o bem ou para o mal, da forma de fazer política em Mato Grosso.
– Em 2002, ao postular pela primeira vez o governo de Mato Grosso, Blairo foi aliado e defendeu a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, à presidência da República. Em 2003 e 2004, Maggi foi duas vezes condecorado pelo presidente Lula, sendo admitido por Lula ao grau de Grande-Oficial especial respectivamente da Ordem do Mérito Aeronáutico e da Ordem do Mérito Militar. Blairo foi eleito governador com 51% dos votos válidos, conquistando a reeleição em 2006 ao governo de Mato Grosso e defendendo a candidatura a presidente de Dilma Rousseff. Ela foi eleita e, ele, reeleito.
– Blairo ainda foi eleito para o cargo de senador da República por Mato Grosso e foi ministro da Agricultura do governo de Michel Temer (MDB). Ou seja, uma trajetória de sucesso na passagem de liderança do agro para liderança política.
O que falta a Odílio Balbinotti Filho para ser candidato a governador? Praticamente tudo o que sobrava em Blairo Maggi:
– Falta militância empresarial, não consta que ele seja uma liderança do setor, não fala pelos produtores como foi Maggi quando surgiu como figura pública;
– Quer, ou querem, que Balbinotti comece por cima, já sentado na janelinha principal: direto candidato a governador do estado.
– Fã confesso do ex-presidente Jair Bolsonaro, Odílio Balbinotti Filho, conhecido como “rei das sementes”, é presidente do Grupo Atto, que engloba diversas empresas da família que atuam no agronegócio. Entre elas está a Atto Agrícola, que tem a maior produção de sementes de soja do Brasil. Ou seja, começa na política atrelado ao líder da extrema-direita brasileira.

– Balbinotti, portanto, não tem unidade majoritária como base do seu discurso. Seu posicionamento é de representante de uma parte da sociedade, homem do bolsonarismo, mais do que ser visto como um representante do agronegócio, por exemplo. E ao ser exposto como bolsonarista, fala apenas para um segmento da sociedade, só para os seguidores do Mito.
– Blairo nunca foi conhecido, pelo menos publicamente, por uma farta distribuição da sua fortuna pessoal para sustentar as candidaturas de outros políticos aliados. Balbinotti ficou conhecido exatamente por esta derrama de dinheiro pessoal para candidatos da extrema direita bolsonarista. Em 2024, Odílio realizou R$ 4.707.900,00 em doações para campanhas políticas em Mato Grosso. O hoje prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini, da extrema-direita bolsonarista, foi um dos agraciados pela doação generosa de Balbinotti.
– O bolsonarismo raiz sonha em ter uma chapa pura, sem a “direita limpinha”, como Jair Bolsonaro chama, com desprezo e deboche, os políticos da direita conservadora. Balbinotti seria o candidato a governador da turma. Há, ao que parece pelo histórico de “mão-aberta”, mais interesse de candidatos ao Senado, deputado federal e deputado estadual, de receber apoio financeiro de Balbinotti do que uma defesa ideológica do empresário milionário do agronegócio como sendo o melhor nome para governar Mato Grosso.
– Balbinotti terá que mostrar que tem condições políticas de ser um Blairo 2, e isso implica em ir além do dinheiro para bancar a sua candidatura e dos seus aliados ávidos pela “estrutura de campanha” que pode sair do bolso do empresário. Precisa de um posicionamento de imagem que fale com a sociedade. É um desafio posto.
Por enquanto, o único candidato declarado a governador de Mato Grosso é o vice-governador Otaviano Pivetta. É preciso certamente que Otaviano cuide de monitorar se essa “Onda Balbinotti” pode virar tsunami ou vai ficar mesmo no nível de marola especulativa. Vale lembrar: Otaviano tem o apoio de Blairo, que está fora da política partidária mas ainda tem muito prestígio no universo político do país e de Mato Grosso e dentro do agronegócio-não radical.





















