Antes da Ética, sua obra mais importante, Baruch de Espinosa escreveu o Breve Tratado de Deus, do Homem e do seu Bem-Estar. O título parece anunciar uma pequena obra; as perguntas que ele contém, no entanto, são grandes. O que é Deus? O que é o homem? Por que existe o sofrimento? Em que consiste a verdadeira felicidade? E, acima de tudo, é possível ser livre?
Escrito no século XVII, o Breve Tratado já contém as sementes da revolução filosófica que Espinosa desenvolveria depois. Sua primeira mudança está na forma como entende Deus. Ele não o vê como um soberano fora do universo, observando e julgando as criaturas. Deus e a Natureza fazem parte da mesma realidade infinita. Tudo o que existe está em Deus, e nada pode ser compreendido verdadeiramente fora dessa totalidade.
Isso muda tudo. O homem deixa de ser o centro da criação. Ele faz parte da Natureza e está sujeito à mesma ordem que atravessa todas as coisas. O universo não existe para satisfação de desejos. A chuva não cai para beneficiar o agricultor, assim como uma tempestade não acontece para puni-lo. A ideia de finalidades humanas vem da expectativa de que a realidade se conforme aos interesses e necessidades individuais.
Essa mudança de visão também afeta a forma como se entende o bem e o mal. Eles não são distribuídos pelo mundo. O que é bom é aquilo que favorece a realização humana, e o que é mau é aquilo que a impede. Parte do sofrimento vem justamente da incapacidade de compreender essa realidade. Espera-se que o mundo corresponda ao que se pensa que ele deveria ser, e o sofrimento surge quando o mundo não se adapta aos desejos individuais.
Aqui surge uma das ideias mais fortes de Espinosa: compreender pode ser uma forma de libertação.
O homem aprisionado pelos afetos acredita ser livre só porque conhece seus desejos, embora muitas vezes não saiba as causas que os geraram. Raiva, inveja, medo, ciúme e ressentimento podem surgir de forma espontânea. Espinosa propõe o oposto: investigar as causas. Compreender um afeto permite reduzir o controle que ele exerce sobre a vida.
Libertar-se não significa fazer tudo o que se deseja. Talvez essa seja apenas outra forma de escravidão. Ser livre significa compreender as melhores forças que geram os desejos e aumentar a capacidade de agir conforme a razão.
Essa visão parece muito atual. A vida hoje está cercada por mecanismos que produzem desejos. Algoritmos escolhem o que será visto, a publicidade antecipada, as redes sociais estimulam comparação, indignação e ansiedade. Uma grande quantidade de escolhas dá a impressão de liberdade, mas raramente se pergunta quem ou o que forma esses desejos.
A partir de Espinosa, surge uma pergunta inquietante: até que ponto os desejos individuais são realmente livres?
O Breve Tratado também tenta responder onde está a felicidade. Ela não pode depender apenas de bens instáveis, reconhecimento ou aprovação alheia, porque tudo isso pode desaparecer. A verdadeira felicidade vem de um conhecimento mais alto, pelo qual se compreende a participação humana na totalidade da natureza e se abandona a ideia de que o homem é o centro do mundo.
Talvez a época de hoje precise exatamente dessa filosofia. Há uma tentativa crescente de controlar o tempo, a natureza, os outros e até a imagem que se constrói diante da sociedade. Espinosa ensina o oposto: antes de querer dominar o mundo, é preciso compreendê-lo.
É por aí…
Gonçalo Antunes de Barros Neto (Saíto) tem MBA em Poder Judiciário pela FGV

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online



























