O ex-governador Blairo Maggi já tratou do tema há alguns anos, mas o cenário contemporâneo obriga que a gente tire do Buraco da Memória a discussão útil para os empresários do comércio, da indústria e do agronegócio em Mato Grosso. Blairo coloca o dedo na ferida da fraqueza de se deixar tomar pelo continuísmo nas entidades de classe. O indivíduo assume o poder em uma entidade e quer se eternizar, agarrado ao cargo como se tivesse ventosas. Ou quem já dominou uma entidade e deseja retomar o poder, não abrindo vez e voz para a necessária renovação.
Em entrevista para o ensaio audiovisual científico que fiz em 2019, “O mundo rural e o cultivo do agropolítico no Brasil – a semente de Mato Grosso”, Blairo Maggi se declarou rigorosamente contra o continuísmo. Ele destacou a chave do vigor das associações de classe do agronegócio em Mato Grosso na década de 1990, o dinamismo representado pela renovação constante das suas lideranças:
“A fábrica de líderes do nosso estado político estão (sic) nas nossas associações. Ele vem, faz um mandato, faz um segundo mandato e… vai embora. Ele vai fazer outras coisas e parte disso acaba fazendo política. Então, é um estado que tem uma cabeça bastante aberta, diferente de muitos outros estados… onde as entidades são perpetuadas por décadas e décadas, ocupadas por uma pessoa e não deixa liberar espaço pra… pra novas pessoas chegar na política”, argumentou Blairo na entrevista para o ensaio audiovisual.
A Fecomércio de Mato Grosso é o exemplo do caminho torto da ruína do continuísmo. A entidade foi um feudo da dinastia Nadaf, que por quatro décadas dominou a Fecomércio-MT. Primeiro, Jamil Nadaf (já falecido), que a presidiu por cinco gestões (19 anos). Depois, o filho Pedro Nadaf, que o sucedeu por mais de uma década, e que levou a reboque a entidade junto com ele para as páginas policiais, com os escândalos de corrupção no governo Silval Barbosa.
Hoje o atual presidente, segundo registra o site RD News, o empresário José Wenceslau de Souza Júnior, o Júnior da Verdão, estaria em busca do terceiro mandato como presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado (Fecomércio-MT), somando 12 anos no poder. A eleição acontece em abril de 2026 para mais quatro anos de mandato.
E em outras entidades já há movimentações de um outro tipo de continuísmo: quem mandou e está fora agora quer voltar para mandar de novo, outra vez. Em ambos os casos de continuísmo o resultado é o mesmo: o enfraquecimento das entidades que representam os empresários, porque não há renovação de ideias, não há espaço para o surgimento de novas lideranças. Mas se há o consenso manso entre os empresários pela acomodação e continuidade dos poderosos de plantão, então o destino está selado: a entidade elege a sua ruína e passa a ter dono. Perde reputação e representatividade aos olhos da sociedade.
Pedro Pinto de Oliveira é jornalista e professor da UFMT. Mestre em Ciências da Comunicação pela USP e doutor em Comunicação pela UFMG.






















