
O assassinato do padre jesuíta João Bosco Penido Burnier, morto por um policial militar ao tentar impedir a tortura de duas mulheres durante a ditadura militar brasileira, completa 50 anos nesta segunda-feira (12.10). O religioso foi baleado em 11 de outubro de 1976, em Ribeirão Bonito, atual município de Ribeirão Cascalheira (MT), e morreu no dia seguinte, em Goiânia (GO), aos 59 anos. Sua trajetória ficou marcada pela defesa dos direitos humanos, dos povos indígenas e das populações mais vulneráveis de Mato Grosso.
Na ocasião, Burnier acompanhava o bispo Dom Pedro Casaldáliga, outra importante figura da resistência à repressão e às violações de direitos humanos durante a ditadura. Os dois religiosos souberam que mulheres estavam sendo torturadas em uma delegacia da região, após a morte de um policial militar. Ao se dirigirem ao local para interceder pelas vítimas, foram recebidos com ameaças e agressividade pelos agentes.
Segundo os registros da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), Burnier afirmou que denunciaria as arbitrariedades aos superiores dos policiais. Em resposta, o soldado Ezy Ramalho Feitosa agrediu o sacerdote, atingiu seu rosto com um revólver e disparou contra sua cabeça. Gravemente ferido, o jesuíta foi levado para Goiânia, mas não resistiu.
Nascido em Juiz de Fora (MG), em 1917, Burnier ingressou ainda jovem na vida religiosa e estudou Filosofia e Teologia em Roma. Em Mato Grosso, dedicou parte importante de sua trajetória à atuação missionária junto aos povos indígenas, especialmente os Bakairi e Bororo. Também trabalhou na Prelazia de Diamantino e integrou a coordenação regional do Conselho Indigenista Missionário (Cimi).
Sua atuação religiosa ultrapassava as atividades tradicionais da Igreja. Em um período marcado pela expansão da fronteira agropecuária, por conflitos fundiários e pela repressão política, Burnier defendia a dignidade das comunidades indígenas e dos trabalhadores rurais. Era reconhecido pela vida simples, pela proximidade com os mais pobres e pela disposição em denunciar injustiças. A defesa da vida e dos direitos humanos era parte central de sua missão religiosa.
Reconhecimento como vítima da ditadura
Embora tenha sido assassinado em 1976, o reconhecimento oficial de sua morte como crime político ocorreu apenas em 2009, quando a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos reviu uma decisão anterior e reconheceu Burnier como vítima da ditadura militar.
Em 2025, o Estado brasileiro também corrigiu sua certidão de óbito, que anteriormente classificava a morte como acidente. O documento passou a reconhecer que o sacerdote morreu em decorrência de uma ação violenta praticada pelo Estado brasileiro no contexto da perseguição política do regime instaurado em 1964.
O assassinato provocou forte comoção. Cerca de duas mil pessoas acompanharam o funeral do padre em Diamantino. O local onde ele foi baleado, em Ribeirão Cascalheira, tornou-se um espaço de memória e hoje abriga o Santuário dos Mártires da Caminhada, que recebe celebrações e peregrinações em homenagem a religiosos e lideranças assassinados na defesa dos direitos humanos.
Memória preservada em Mato Grosso
Neste ano, a trajetória de Burnier voltou a ser lembrada por comunidades religiosas e movimentos sociais. Em julho, Ribeirão Cascalheira recebeu a 8ª Romaria dos Mártires da Caminhada Latino-Americana, dedicada à memória daqueles que perderam a vida na defesa dos povos e da justiça social.
Em Cuiabá, a Arquidiocese também promove homenagens ao sacerdote no período em que se completam cinco décadas de sua morte. Em vídeo publicado no canal da instituição no YouTube, o padre jesuíta Aloir Pacini apresenta a história e a missão de Burnier. Confira:

























