Talvez por terem sido demasiadamente diretas, e chocantes, meu cérebro não decodificou de imediato, a violência verbal de três senadores contra a ministra Marina Silva. Ouvi, mas não acreditei ser aquilo possível, embora infelizmente a incivilidade e a barbárie venham se normalizando na vida brasileira.
O leitor já deve tê-las ouvido inúmeras vezes por estes dias, mas não custa repeti-las. Um disse que “respeitava a mulher, mas não a ministra”, como se houvesses alguma diferença; outro, para ela “se pôr em teu lugar” (tradução mais suave: aqui você não apita nada). Já o terceiro, acusou-a de atrapalhar “o desenvolvimento do nosso país (…), por causa dessa conversinha, governança, nenhem-nenhem-nenhem”, como se não soubesse que uma obra com impacto ambiental precisa passar por vários trâmites, aliás definidos pelo próprio congresso do qual é membro.
Também achei ter lido errado estas duas outras notícias, mas não. Aconteceram. A Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados aprovou moção de solidariedade ao deputado Eduardo Bolsonaro, justificando que “ele age em defesa da soberania nacional, da liberdade de expressão, das prerrogativas parlamentares e da democracia brasileira”, por tentar fazer com que os EUA punam Alexandre de Moraes, do STF. E Nikolas Ferreira defende a proibição de vistos para a entrada de estudantes em território norte-americano com base em suas redes sociais.
Me lembrei de duas frases antológicas. A primeira é um vaticínio de Ulysses Guimarães, presidente da Assembleia Nacional Constituinte, entre 1987 e 88, responsável pela atual Constituição. Em resposta a uma pergunta, disse: “Se acha que este congresso é ruim, espere até o próximo”. Não que as legislaturas brasileiras tenham sido exemplos de altruísmo e civilidade, mas as “maldades” não eram tão escancaradas. As roupas sujas eram lavadas em casa, não em público. Mesmo que hipócrita, havia um pouco dignidade no ar.
(O escancaramento atingiu até o executivo. Bolsonaro, durante seu mandado, chamou Alexandre de Moraes de “canalha”, “vagabundo”, “ditador”; e já xingou Luiz Roberto Barroso e o chamou de “imbecil e idiota”, “mentiroso”, “sem caráter”).
A outra é do jurista Sobral Pinto, que apesar de católico fervoroso, de direita e conservador, defendeu figuras da esquerda brasileira
Luiz Carlos Prestes. Preso por alguns dias após a decretação do AI-5, teria cunhado a frase: “Coronel, há peru à brasileira, mas não há soluções à brasileira. A democracia é universal, sem adjetivos”.
O que, com certeza, não é o caso de quem defende a liberdade de expressão, mas concorda com a censura e tape os olhos à violência contra quem pensa diferente. Ainda bem que há um bom contingente que define este tipo de atitude como falta de caráter, tartufismo, fingimento, sonsice ou simplesmente oportunismo, mas que, infelizmente, ainda atrai muitos votos.
Jairo Pitolé Sant’Ana é jornalista

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online
























