Motivada pelo desejo de ajudar um casal de tios a realizar o sonho de ter um bebê, a biomédica Patrícia Bueno Balas, que mora em Sinop (479 km ao Norte de Cuiabá), foi barriga solidária da família. Em entrevista ao PNB Online ela conta como foi todo o processo, desde a decisão de se voluntariar para a gestação até o nascimento da pequena Betina.
Patrícia é casada há oito anos com Roberto Balas. Eles são pais da Cecília, 5 anos, e da Isabela, de 3. Foi em 2021, quando a filha mais nova ainda estava com oito meses, que ela se ofereceu para ser barriga solidária do casal. “Meus tios moram em Rondônia. Eles estavam passando por Sinop e eu perguntei por que estavam aqui (Sinop) e eles me explicaram que estavam tentando ter um filho. Há dez anos eles estavam tentando. Minha tia fez Fertilização in Vitro (FIV), mas não deu certo. Foi quando eu perguntei se eles tinham pensado em barriga solidária”, explicou Patrícia.
No Brasil, a barriga solidária só pode ser por uma mulher que tenha no máximo 50 anos e seja parente de até quarto grau de um dos genitores, podendo ser mãe, irmã, avó, tia, sobrinha ou prima. “Na hora que eu perguntei minha tia disse que seria difícil algum familiar querer. E foi quando me ofereci: ‘e se fosse eu?’. Foi na emoção de entender o sonho e tentar ajudar a realizar. Eu nem tinha conversado com o Roberto. Só pensei que eu não tive problemas na gestação das minhas filhas, graças a Deus, então não sei imaginar como seria tentar e não conseguir. O olho do meu tio encheu de lágrima”.
Na época, Patrícia ainda amamentava a filha Isabela e passou então a receber acompanhamento médico da equipe da Clínica Fecundar Medicina Reprodutiva, em Sinop, coordenada pela médica especialista em Fertilização in Vitro (FIV), Daianni Stadtler. No caso dela, a projeção era de 40% de chance da gravidez dar certo, uma vez que os tios tinham dois embriões que ficaram congelados por dois anos.

A gestação em barriga solidária só pode acontecer com a combinação de técnicas de reprodução assistida. Nesses casos, o método principal é a fertilização in vitro (FIV), que consiste na produção do embrião em laboratório para posterior transferência ao útero de substituição.
A barriga solidária não tem fins lucrativos e é prevista em resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM), que busca garantir mais segurança nos procedimentos quanto para as pessoas envolvidas.
Da decisão de se voluntariar até a primeira FIV foram quase dois anos. Tempo para Patrícia amamentar a filha mais nova e, tanto ela como o esposo e as filhas, se preparar para a nova gestação. A primeira tentativa de FIV foi em dezembro de 2022. “Pelos olhos da medicina era o melhor embrião, mas não desenvolveu. Eu sofri horrores pensando como não conseguiria ajudar”.
A segunda tentativa foi em fevereiro de 2023 e no mês seguinte Patrícia confirmou que estava grávida da pequena Betina. “Aprendi a ter mais paciência e confiar em Deus. A médica me disse que se não fosse Deus não seria ela ou a medicina que faria dar certo. Aos olhos da medicina esse embrião teria menos chance. Mas ela (Betina) veio ao mundo. Linda e maravilhosa”.

Além do pré-natal e no parto, Patrícia, o esposo e as filhas tiveram acompanhamento com psicólogas. “Desde o começo já estava bem firmado na nossa cabeça. Foi tudo muito tranquilo. A gente sente por conta de todos os hormônios e o contato na barriga, mas sabíamos que estávamos ajudando e foi muito tranquilo”.
Betina nasceu no dia 30 de outubro de 2023, com 38 semanas de gestação e três dias. Os pais acompanharam o parto da Patrícia e foi a mãe quem cortou o cordão umbilical. “Me sinto realizada e agradecida a Deus por ter tido essa oportunidade de ajudar. Todo mundo fala que é algo extraordinário o que eu fiz, mas eu não vejo que é assim. É amor ao próximo para ajudar a trazer uma felicidade, que são os filhos. É amor e ter uma visão de solidariedade”.
Consentimento
De acordo com o Conselho Federal de Medicina (CFM), após definir a responsável pela barriga solidária, a mulher que vai gerar o bebê precisa assinar um termo de consentimento para autorizar o procedimento, assim como afirmar que está ciente dos riscos da gestação. Este documento deve constar os dados da responsável pela barriga solidária, aspectos biológicos e como será o registro da criança após seu nascimento.
Todos os envolvidos devem assinar o termo. Caso a barriga solidária seja casada, ou viva em união estável, o cônjuge também deverá assinar os termos, demonstrando estar ciente do procedimento. “Primeiro foi um gesto de amor, segundo que Deus tinha planos para ela, para os pais. Eu não podia dizer não”, explicou Roberto Balas.


























