Recentemente, o título de um post no Instagram chamou minha atenção. Ao relatar um acidente de trânsito envolvendo um motorista que carregava uma bandeira do Brasil em seu veículo, a publicação o descrevia como “patriota”. O que poderia parecer apenas uma escolha comum de palavras rapidamente se transformou em debate nos comentários. O que mais me chamou a atenção foi que a interpretação no conceito político da expressão foi quase unânime. Pouquíssimas pessoas discutiam o fato em si ou o significado literal da palavra. A maioria enxergava naquele termo uma referência ideológica. Mais interessante do que a discussão foi perceber como uma única palavra foi capaz de conduzir quase todos os leitores para a mesma interpretação.
Do ponto de vista da língua portuguesa, o uso da palavra estava correto. Patriota é aquele que demonstra amor, orgulho ou identificação com sua pátria. A presença de uma bandeira nacional poderia justificar perfeitamente essa descrição. No entanto, a comunicação não acontece apenas no campo das definições formais. As palavras também carregam os sentidos que a sociedade constrói para elas ao longo do tempo.
Nos últimos anos, “patriota” passou a ser frequentemente associado ao movimento político de extrema direita no Brasil. Como consequência, muitas pessoas deixaram de interpretar a palavra exclusivamente por seu significado original e passaram a enxergá-la como um marcador ideológico. Esse processo não é incomum. A história da linguagem é repleta de exemplos de palavras que adquiriram novas conotações a partir dos contextos em que foram utilizadas.
É justamente por isso que comunicar exige mais do que domínio do vocabulário. Quem produz conteúdo precisa compreender não apenas o que uma palavra significa, mas também o que ela representa para o público. Uma expressão pode estar correta segundo o dicionário e, ainda assim, provocar interpretações completamente diferentes da intenção inicial. Em comunicação, percepção e significado caminham lado a lado.
Não descarto a possibilidade de que a escolha da palavra tenha sido proposital. Em um ambiente digital movido por curtidas, compartilhamentos e comentários, títulos ambíguos costumam gerar engajamento. Ao utilizar um termo carregado de significados sociais recentes, o autor da publicação pode ter encontrado uma forma eficiente de estimular a participação do público. Afinal, poucas coisas geram mais interação do que uma palavra capaz de dividir opiniões.
Faz parte da comunicação compreender o contexto em que as mensagens serão recebidas. Não basta confiar apenas no significado original das palavras. É preciso considerar as experiências, referências e associações que cada termo desperta nas pessoas. Entre o que queremos dizer e o que os outros entendem existe um espaço chamado interpretação, e é exatamente onde se encontra o verdadeiro desafio da comunicação.
Bruno Moreira (@obrunocos) é publicitário e gestor de marketing

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

























